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Um Simpósio Científico em 2008

SEGUNDA ETAPA

Do Espaço Cósmico à Nova Realidade

 

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Subtópicos

1 – A ciência ocidental nasceu na Grécia

2 – Presupostos metafísicos da ciência ocidental

3 – A expulsão do paraíso

4 – Instala-se a crise

5 – O sabá quântico

6 – O sumiço da realidade

Referências bibliográficas

#05 – A Velha Realidade

O caso da realidade objetiva desaparecida

Adam F. Newman Universidade do Texas em Austin – Estados Unidos

 

1 – A ciência ocidental nasceu na Grécia

No que diz respeito ao conhecimento científico/filosófico ocidental, tudo começou com os gregos, como sabemos. Não estaremos longe da verdade se dissermos que o pensamento científico nasceu na Jônia, colônia grega na costa leste do mar Egeu, onde no sexto e quinto séculos antes de Cristo viveram muitos dos homens mais criativos de todos os tempos. A ciência, quando surgiu, chamava-se filosofia e não se afastava muito da poética e das artes de um modo geral, mas distanciava-se consideravelmente da religião, porque tinha suas próprias explicações para os temas que esta considerava de seu domínio exclusivo. Naquele momento singular da história, a tolerância com os dissidentes era bem maior do que em alguns lugares do mundo contemporâneo que se pretendem civilizados. E foi nesse clima de relativa liberdade de pensamento que o conhecimento humano cresceu e floresceu, como nunca tinha sucedido antes e poucas vezes ocorreu depois.

Os sábios da Jônia buscavam, primordialmente, o entendimento do mistério das origens e de como o mundo foi criado; cada um deles tinha sua proposição sobre qual era o elemento primordial de que todas as coisas eram feitas, e confiavam mais na sua inteligência do que nos ensinamentos dos sacerdotes e nas crenças da tradição. Tinham seus discípulos e formaram as primeiras escolas filosóficas, dos que amavam o saber conquistado – e não o saber herdado de alguma autoridade que reivindicasse para si a propriedade do conhecimento.

Tales de Mileto, que pode ser considerado o primeiro cientista, dizia que a água era o elemento primordial da physis – a natureza, no sentido amplo que os gregos davam a esse conceito. Anaxímenes, também de Mileto, discordou de Tales e propôs que o primeiro elemento seria o ar. Demócrito de Abdera – colônia jônica na Trácia – dizia, junto com Leucipo, que tudo era feito de partículas minúsculas e indivisíveis que flutuavam no vácuo. Outros propunham algo mais abstrato como sendo o elemento primordial: Ferequides dizia que o tempo é a matéria-prima de tudo o que existe; Heráclito propunha o fogo como substância básica da natureza, mas destacava com igual ênfase o tempo e a transformação, intuindo a concepção Taoista dos chineses, seus contemporâneos, que estavam do outro lado do planeta. Anaximandro, da fértil Mileto, disse que o apeiron, o ilimitado, é o princípio de todas as coisas, e Pitágoras, que não era da Jônia, mas foi um dos mais seminais dentre os pensadores dessa época, via nos números o princípio da organização do cosmos. Euclides, por sua vez, considerava a geometria como algo fundamental, tanto que deu ao seu tratado o nome de Elementos. É nessa época, portanto, que surge a preocupação com os constituintes primordiais da realidade e com os princípios que regem a organização do mundo.

Seria exaustivo e inviável percorrermos a longa trajetória do pensamento ocidental desde a Grécia Clássica, com Platão e Aristóteles fundando as principais linhagens filosóficas que persistiram pelos séculos subsequentes, até a visão de mundo medieval e o advento do pensamento científico moderno. Cabe ressaltar, entretanto, que o interesse por essa investigação básica, mesmo tendo nascido há dois mil e quinhentos anos entre os pré-socráticos, permaneceu latente durante a maior parte dos séculos decorridos desde então, quando o pensamento ficou dominado pelo enfoque religioso e pelo respeito à autoridade dos sábios oficiais. Persistiu de forma semiclandestina entre os dissidentes, que se denominaram gnósticos e, posteriormente, alquimistas. O conhecimento escolástico, apoiado na autoridade de Aristóteles, Tomás de Aquino ou Santo Agostinho, permaneceu dominante até o século dezenove, apesar dos crescentes conflitos com a ciência que renascia, inaugurados por Galileu Galilei no século dezessete e repetidos por muitos outros que lhe sucederam, custando-lhes o constrangimento de uma retratação, ou a própria vida.

Tal como ainda acontece em áreas localizadas deste nosso diversificado planeta, o pensamento baseado na autoridade religiosa, na palavra de um líder ou numa doutrina, manteve o conhecimento científico estagnado e a criatividade sufocada nos estreitos limites dos cânones estabelecidos. Isto conduziu ao isolacionismo e à esterilidade cultural, à hostilidade contra as vozes discordantes, e à pratica de crimes nefandos em nome de um deus, de um livro ou de uma crença. Todos nos lembramos dos horrores da inquisição e é bom ter em mente que ainda não nos livramos de que algo parecido volte a ocorrer. É inquietante constatar que mesmo em nossos dias, quando as telecomunicações se tornaram instantâneas e globais e o conhecimento está mais democratizado do que em qualquer outra época da história, permaneçam áreas sombrias remanescentes, manchas de obscurantismo e ignorância, hostis ao pensamento livre e aos outros povos e culturas. Não me refiro apenas aos países sob o domínio de religiões formais ou seitas fanáticas, mas vejo com a mesma ótica fenômenos políticos recentes, como o nazismo, o comunismo e tantas ditaduras ideológicas pequenas e grandes, nas infelizes nações por elas subjugadas.

O renascimento do pensamento científico começou efetivamente um século depois do renascimento artístico, não obstante a contribuição antecipada e isolada do gênio multifacetado de Leonardo da Vinci. Herdou, como não poderia deixar de ser, grande parte do legado grego e também da metafísica medieval, embora isto raramente seja explicitado. Inaugurou, com Galileu, o experimentalismo – que os gregos não conheceram – e o emprego da matemática como instrumento fundamental do conhecimento. E trouxe à luz a ciência contemporânea ocidental, responsável por avanços sem precedentes, que vem legando ao mundo um vasto manancial de resultados altamente positivos em diversas áreas que afetam diretamente as nossas vidas, como saneamento, transportes, processamento da informação e comunicações. O mundo de hoje seria impensável sem a tecnologia, que deriva diretamente da forma ocidental de fazer ciência.

 Dentre as ciências naturais, a física é vista como emblemática, no rigor dos seus métodos, na formulação de teorias abrangentes sobre a realidade e no desenvolvimento de um arsenal de instrumentos cada vez mais caros, sofisticados e precisos para uso na pesquisa empírica, buscando investigar os fundamentos da matéria e da energia, prosseguindo em nossos dias com o ideal grego de conhecer os materiais básicos de que o mundo é feito e de que modo ele funciona.

Os trabalhadores da área científica, particularmente da física, são muito ciosos dos seus critérios restritivos e dos seus métodos rigorosos, que visam suprimir qualquer influência, nas suas investigações, de algo que lhes pareça estranho a uma ciência que pretendem objetiva. Atitudes e posicionamentos tidos como “místicos” ou “subjetivos” são severamente criticados, e aqueles que se permitem incursões fora das áreas delimitadas como “ciência séria” são vistos com desconfiança e marginalizados, se insistirem. Procurando defender-se da superstição, a ciência confunde o misticismo sério com mistificação irresponsável, delimitando assim uma restrita área de validade para o que considera conhecimento, e punindo seus dissidentes com o desprezo e o isolamento intelectual.

Os registros incluem muitos nomes de cientistas anteriormente respeitados que ultrapassaram esses limites e hoje são vítimas de anátema por parte de seus pares. E, também, de vários outros que precisaram articular um recuo estratégico ao âmbito ortodoxo, para não perderem a consideração dos seus colegas e as verbas para suas pesquisas. Os casos do Professor Charon, na França, e do Professor Taylor, na Inglaterra, são exemplos dessas duas situações, que poderíamos chamar de síndrome de Giordano Bruno e síndrome de Galileu. É verdade que hoje não se matam fisicamente os dissidentes, mas, para um homem de ciência que está convicto da seriedade de suas pesquisas e se vê marginalizado e desprestigiado por seus antigos colegas e pela maior parte da comunidade intelectual a que pertence, isto pode ser tão cruel quanto a morte. O falecido David Bohm, a quem deve ser creditada boa parte dos avanços da física quântica, passou parte da sua vida tentando livrar-se do obscurantismo político, que empreendia “caças às bruxas” onde imaginava que elas existissem e, pouco depois, da ortodoxia de alguns colegas, que muito se irritaram com a formulação de sua hipótese da totalidade, que incluía aspectos “não físicos” em sua compreensão do mundo.

Os exemplos dessas perseguições em nossa história recente são inúmeros, especialmente se procurarmos também em outras ciências. Ao meu ver, são sintomas claros das dificuldades inerentes ao choque de paradigmas que caracteriza a transição cultural de século e de milênio. A crise existe e precisamos examiná-la com cuidado, isenção e amplitude de perspectiva. Se nos posicionarmos estritamente dentro dos limites estabelecidos pelo paradigma vigente, dificilmente poderemos entender o que se passa.

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2 – Pressupostos metafísicos da ciência ocidental

É necessário admitir que os conteúdos e conceitos da ciência contemporânea são ainda gregos, em sua essência, e que as proposições gerais que delimitam o campo de investigação apoiam-se em pressupostos metafísicos não-científicos. Essa base metafísica é caracteristicamente greco-romana e judaico-cristã, e somente se aplica à ciência do mundo ocidental que, embevecida com os resultados obtidos no âmbito da tecnologia, recusa-se a reconhecer outras formas de conhecimento que repousam sobre pressupostos diferentes dos seus. Procurando pelos componentes fundamentais da realidade, tentando encontrar com que tijolos a matéria e o universo são construídos, os físicos prosseguem a saga jônica sem ter dela uma visão crítica, admitindo tacitamente que dessa busca emergirá uma compreensão do que seja o mundo.

Tales pensava que o mundo era feito de água; os físicos de hoje pensam que é feito de quarks. A crença em átomos que se movem no vazio segundo leis matemáticas imanentes à natureza remonta a Demócrito e Leucipo, do mesmo modo que já é antiga a suposição newtoniana de que a mente é separada do mundo físico e que a realidade pode ser compreendida sem se considerar a consciência como parte integrante dela. Assim, desde a Antiguidade Grega até a Idade Moderna, os pensadores ocidentais procuraram entender a natureza da realidade física como algo à parte da experiência e das vivências humanas; com isto, isolaram a vastidão interior de que eles próprios são feitos e abandonaram toda a vertente imaginária e subjetiva da totalidade. Desse posicionamento, podemos inferir o primeiro pressuposto – nem sempre explicitado – da ciência moderna: 

O universo existe independentemente da percepção humana, mas pode-se chegar a conhecê-lo pelo emprego adequado dos métodos e instrumentos desenvolvidos pela ciência.

Este é um posicionamento metafísico herdado da tradição científica de raízes gregas, que não é reconhecido por outras culturas avançadas, como as da Índia e da China, e que vem sendo negado por investigações recentes da própria ciência ocidental. Isto será esclarecido mais adiante.

Um outro artigo de fé adotado pela física atual e que também tem sua origem claramente na Grécia, pode ser enunciado assim:

 Toda a realidade reduz-se essencialmente a matéria e energia submetidas às leis cegas e imutáveis da natureza.

 Esta petição de princípio é a base do materialismo que a ciência ocidental assumiu ao negar a existência do mundo psíquico-imaginário, ao reduzir a vida a um subproduto de interações entre complexas substâncias químicas, e a consciência a um epifenômeno emergente da organização neuronial do sistema nervoso. É uma postura visivelmente restritiva, por alijar nossa experiência mais direta: o sentimento imediato de que somos uma subjetividade, por seu próprio direito. O reducionismo físico não é uma conclusão inferida das pesquisas científicas: pelo contrário, ele fornece o contexto metafísico onde se efetivam as pesquisas e se formulam as teorias.

Existe ainda um terceiro princípio subjacente à atividade do cientista ocidental que podemos identificar como de conteúdo metafísico, uma vez que exige claramente de quem o adote uma posição de fé no seu trabalho. Esse princípio dificilmente resistiria a uma avaliação rigorosa da evolução do conhecimento científico e a algumas descobertas da matemática do século vinte. Seu enunciado é o seguinte:

 Apesar da ciência repetidamente abandonar suas teorias mais antigas, ela progride firmemente no sentido de chegar a uma representação correta do universo tal como ele realmente é.

Parece-me evidente a falsidade desse pressuposto, adotado pela ciência para seu próprio marketing, e que não subsiste à luz de um exame rigoroso do que tem efetivamente sucedido. Este último princípio é claramente promocional, inclusive no sentido mais pragmático da obtenção de fundos para pesquisas e construção de equipamentos cada vez maiores e mais caros. Já não parece ser inteiramente convincente, porque em 1993 o Congresso dos Estados Unidos cancelou o projeto para a construção do gigantesco acelerador de partículas Superconducting Super Collider (SSC), que custaria a soma fabulosa de 11 bilhões de dólares, colocando um ponto final no processo alucinado de se construir equipamentos cada vez maiores para estudar partículas cada vez menores. Subjacente ao princípio acima está um outro pressuposto, que dificilmente seria entendido ou aceito em qualquer outra cultura que não a nossa, cujo enunciado é: 

O conjunto da realidade é um vasto sistema unificado que pode ser apreendido pela razão e representado por nossas teorias. 

Esses princípios são de natureza metafísica, não são axiomas evidentes por si mesmos, não são deduzidos nem podem ser provados, não são princípios universalmente adotados numa pluralidade de culturas – como são, por exemplo, os universais da linguagem identificados por Chomsky – e estão sendo seriamente contestados por experimentos de laboratório e teoremas demonstrados da matemática contemporânea. A crise epistemológica do choque de paradigmas nasceu e se agravou no decorrer do século vinte, e tudo indica que o novo milênio logo assistirá ao nascimento de uma ciência em que esses pressupostos terão que ser corajosamente abandonados.

Veremos agora como teve início e se complicou esta crise, que abala a ciência contemporânea em seus alicerces.

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3 – A expulsão do paraíso

No princípio da ciência moderna, o mundo era um paraíso feito de luz e de átomos. Nele, tudo era determinado e previsível e Isaac Newton era seu profeta.

A luz, cuja refração já tinha sido estudada por Newton no século dezessete, teve sua natureza ondulatória estabelecida por Thomas Young, em 1803, com a célebre experiência das duas fendas paralelas, em que um raio incidente passando por elas revelava padrões claro-escuros de interferência, quando captado mais adiante num anteparo. Padrões de interferência são característicos da propagação de ondas, como se pode verificar ao lançarmos duas pedras num lago tranquilo: onde as ondas circulares se encontram, formam-se padrões de interferência. Até fins do século dezenove, a luz era reconhecidamente uma onda que se propagava num meio muito sutil, que foi denominado éter luminífero.

A matéria era constituída de átomos extremamente pequenos, diferenciados conforme os diversos elementos químicos; cada elemento tinha o seu átomo próprio, diferente dos demais. Considerava-se que essas partículas eram tão pequenas e indivisíveis que qualquer especulação sobre a sua natureza interna já não era uma questão física, e sim metafísica.

Na última década daquele século, era voz corrente entre cientistas de renome que o conhecimento da realidade física estava em vias de se completar; logo se teria um quadro amplo do universo e o mundo não mais teria mistérios. O que se podia conhecer estava já conhecido (ou quase) e o que não se sabia eram apenas detalhes, ou questões consideradas de ordem metafísica, além dos limites da ciência. O pensador francês Augusto Comte, querendo exemplificar um tipo de conhecimento que nunca poderia ser acessível aos homens, teve a infelicidade de sugerir que um deles seria o material de que são feitas as estrelas, que, por estarem tão distantes, jamais poderiam ser examinadas. Isso colocava o estudo da constituição das estrelas como uma questão metafísica, tanto quanto o estudo da intimidade dos átomos. Entretanto, poucos anos depois desta peremptória declaração, alguns astrônomos estavam aplicando o conhecimento das raias de absorção e emissão, descobertas por Fraunhöfer, ao espectro da luz das estrelas, determinando assim os elementos químicos que entravam na composição de cada uma delas. O que pretendemos destacar, quando examinamos o contexto ideológico da ciência no final do século dezenove, são os pontos de semelhança com o que ocorre agora.

Primeiro, a confusão estabelecida na caracterização do que seja “metafísico”. Com cem anos de diferença, verificamos que a ciência ainda prefere desconhecer as bases efetivamente metafísicas dos seus pressupostos não explicitados, como também continua a rotular de metafísicos os problemas que não consegue apreender nos conceitos vigentes, considerando-os como exteriores ao seu campo de estudo e pesquisa. No final do século dezenove, foram a composição química das estrelas, a constituição interna dos átomos etc.; no século vinte são os fenômenos em que a presença do mundo subjetivo se impõe como uma face inalienável do experimento. É preciso muito cuidado quando ouvirmos um cientista dizer que este ou aquele problema é de natureza metafísica; será necessário, antes, examinar se ele tem consciência dos fundamentos metafísicos do que faz e, depois, se ele não está usando a palavra metafísica como uma cesta de papéis usados, onde lança os problemas que não consegue estudar com seu aparato conceitual e sua ideologia.

O segundo ponto de semelhança entre as duas passagens de século é a curiosa sensação de alguns dos físicos mais representativos de cada época de que o quadro do conhecimento científico está em vias de se completar, e que pouco falta para que se tenha um panorama definitivo do universo, em que somente restaria o preenchimento de alguns detalhes sem maior importância. Esta situação, que foi comentada ontem pelo Professor Weisskopf em sua brilhante palestra sobre a natureza do tempo, reúne na mesma atitude ingênua os cientistas do fim do século dezenove e o nosso contemporâneo Stephen Hawking, que também anunciou que pouco falta para completar o conhecimento global de todo o universo e do seu funcionamento.

As investigações científicas prosseguiram além do que o século dezenove supunha ser o limite do conhecimento, assim como continuarão ao longo do século vinte e um. Mas, do mesmo modo que a ciência sofreu uma substancial transformação em suas bases, do século dezenove para o vinte, também a física que agora emerge no século vinte e um apresentará uma outra face, que dificilmente seria reconhecida como ciência por um físico do século vinte, sem lhe causar um profundo mal-estar, quando verificar que muitos temas que ele recusava como metafísicos serão centrais nas investigações e na nova concepção do que seja a totalidade cósmica.

Estamos vivendo os desdobramentos de uma crise epistemológica que fermentou durante todo o século vinte, tendo origem em dois fatos e experimentos do fim do século anterior. O primeiro deles foi a famosa experiência de Michelson e Morley, provando que não existe algo como um éter luminífero e tornando-se o ponto de partida para a teoria da relatividade; e o segundo, chamado de catástrofe ultravioleta, que revelou através do cálculo um perfil inteiramente inesperado para a radiação de um corpo negro, em que as frequências mais altas apareciam tão exageradas que teriam que possuir uma energia infinita. Este resultado contrariava a experiência empírica e não fazia sentido, abrindo o caminho para as investigações que conduziriam à teoria dos quanta. Daí em diante, sucederam-se descobertas constrangedoras, experimentos com resultados paradoxais, teoremas matemáticos surpreendentes e a progressiva demolição do cenário estabelecido pela física clássica.

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4 – Instala-se a crise

Rutherford mostrou que o átomo não era uma bolinha submicroscópica, e sim um imenso vazio timidamente ocupado por um núcleo solitário, com um diâmetro cem mil vezes menor, circundado por elétrons ainda menores girando loucamente em órbitas distantes. Pouco depois, repetições mais sofisticadas da experiência das duas fendas fizeram a luz romper a barreira da lógica, quando revelaram sua natureza dupla e contraditória de uma onda que também é uma partícula, uma vibração que também é um projétil. A ciência estava expulsa do paraíso instaurado por Newton e sacramentado por Descartes.

O átomo perdeu o seu posto de constituinte elementar e indivisível da matéria: não só era composto de partículas ainda menores, como era formado por um núcleo e uma periferia eletrônica, sugerindo um micro sistema solar, na metáfora da época. O núcleo atômico, por sua vez, mostrou ser constituído de prótons e nêutrons, e que podia ser fragmentado com a liberação de fantásticas energias. Nos meados do século, começou a entrar em cena um inesperado elenco de partículas supostamente elementares, geradas em situações especiais sob a ação de altas energias, como nos raios cósmicos que vinham das profundezas do céu ou nas máquinas poderosas criadas pelo homem para penetrar com violência na intimidade da matéria.

A natureza ambivalente da luz logo se estendeu a todas as radiações eletromagnéticas de qualquer comprimento, desde as ondas de rádio até os raios gama, que diferiam apenas na quantidade de energia que transportavam. E mais ainda: para aumentar o vexame, verificou-se que as partículas ditas elementares, como o elétron, os núcleons e toda a variedade surgida dos experimentos – que já ia além de duas centenas – também eram ondas, ou vibrações, dependendo do tipo de experiências que se estivesse procedendo. É importante ter em mente que tanto as radiações eletromagnéticas como aquilo que se considerava como partículas elementares da matéria eram simultaneamente ondas e partículas; não apenas se comportavam em alguns casos como ondas e em outros como partículas: todas pareciam incorporar essa dupla personalidade simultaneamente; só a natureza do experimento efetuado é que limitava ao pesquisador ver uma ou outra dessas faces, mas nunca as duas de uma só vez.

Dificuldades adicionais surgiram quando se pretendeu saber exatamente onde estava uma determinada partícula e qual a velocidade com que se deslocava. Verificou-se que não era possível obter as duas informações ao mesmo tempo; ou se media a velocidade ou se determinava a posição da partícula. Quanto maior a precisão de uma das medidas, mais vaga seria a outra informação; e esta limitação não se devia a uma deficiência dos instrumentos, ou dos métodos empregados. Heisenberg provou que essa indefinição era uma característica peculiar desse submundo ultramicroscópico, onde todo conhecimento que dele se podia obter era de natureza estatística e probabilística, nunca podendo atingir um nível de acuidade suficiente para se saber com exatidão o que ocorre com uma partícula isolada, por mais precisos que sejam os instrumentos empregados. E isto era só o começo das fantasmagorias que o estudo do mundo quântico reservava aos seus atônitos pesquisadores.

O mais incrível, talvez, seja o espantoso sucesso prático dessa teoria em todos os campos onde tem sido aplicada, apesar de apoiada sobre paradoxos que desafiam a lógica e intrigam os cientistas. É realmente surpreendente: nunca os tecnólogos e pesquisadores encontraram qualquer situação prática que indicasse que a teoria quântica está errada ou imprecisa. Muito pelo contrário; ao mesmo tempo que o mundo quântico se dilui intimamente num feixe de paradoxos lógicos e impossibilidades cognitivas, permite generosamente, com aquilo que nos é dado a conhecer, um manancial inesgotável de maravilhas como o computador, os vídeos de cristal líquido e a holografia, produzidos pelos magos da eletrônica e da novíssima tecnologia fotônica. A caixinha de surpresas em que a tecnologia se transformou está muito longe de se ter esgotado, e as inovações que o futuro próximo nos reserva deverão nos surpreender muito mais, sendo literalmente impossível imaginar o que virá mais adiante.

Mas ao lado dessas alegrias permanecerá a sombra de uma certeza que nos perturba e, ao mesmo tempo, reorienta nossas ponderações filosóficas: a certeza já demonstrada de que existem barreiras muito sérias no caminho do conhecimento racional da organização íntima da matéria, da energia e do universo. Ao mesmo tempo que nos é facultado o acesso a uma variedade cada vez mais surpreendente de recursos tecnológicos, que já integram o planeta numa incrível rede de informações e interações – inimaginável há apenas uns poucos anos –, temos que conviver com um definitivo bloqueio cognitivo aos recessos mais profundos do Ser, em sua vertente real, material.

A barreira colocada pelo princípio da indeterminação de Heisenberg é categórica: não se pode conhecer simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula. Do mesmo modo que nossa mente lógica não pode conceber uma vibração que é ao mesmo tempo uma bala, embora seja isto que mostram ser todas as radiações eletromagnéticas e todas as partículas que parecem constituir o recheio do universo físico. Depois de Heisenberg, vieram outros bruxos da ciência lançando suas maldições eternas sobre as pretensões a um conhecimento absoluto do que se pretende chamar de realidade, e que os integrantes do velho paradigma consideram ser “tudo que existe”. Vejamos o que disseram esses bruxos.

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5 – O sabá quântico

O ano de 1927 foi particularmente prolífico nos insights que conduziram à reviravolta que alterou substancialmente as nossas expectativas de conhecer em profundidade como a matéria e a realidade são constituídas. Nesse mesmo ano, em que Heisenberg formulou seu princípio da indeterminação, Niels Bohr, reconhecido muito justamente como o grande mestre da visão quântica do mundo, levava mais adiante a nova concepção ao propor seu princípio da complementaridade, que reconhecia a dualidade onda/partícula em todas as microentidades, instituindo uma fleumática esquizofrenia na interpretação dos fenômenos quânticos, ou abolindo qualquer pretensão de interpretá-los. “É um erro pensar que o objetivo da física é descobrir o que a natureza é. A física procura estabelecer apenas o que nós podemos dizer sobre a natureza”, sentenciou o mestre.

Já em 1926, Schrödinger e Max Born mostraram que uma partícula elementar não podia estar num lugar determinado até que fosse objeto de uma medição, um experimento, uma observação; o máximo que se poderia dizer dessa partícula é que ela possivelmente, ou provavelmente, estaria aqui ou ali. Schrödinger propôs a famosa equação de onda que definia essa probabilidade e Born mostrou que ela não era uma onda de coisa alguma que se pudesse chamar de matéria ou energia, mas era a onda abstrata de uma mera possibilidade matemática de que a partícula aparecesse neste ou naquele lugar. E a maior fantasmagoria dessa onda abstrata é que, apesar do seu caráter não material – dir-se-ia imaginário, não físico –, ela está sujeita aos mesmos fenômenos de interferência característicos das ondas reais, que a física já estudava. Agora pergunta-se: como podem abstrações matemáticas interferir entre si? O quê interfere com o quê? O fato é que a equação de Schrödinger não indica o lugar onde uma partícula está, mas apenas onde ela pode estar, e as probabilidades dessa ocorrência em cada ponto; apenas quando se efetua uma medição – ou observação – é que se dá o chamado colapso da função de onda e a partícula opta por um desses pontos, e aí se materializa. Se o experimento se prolongar e muitas ondas forem submetidas ao colapso, veremos que as partículas se distribuirão conforme as probabilidades previstas, mesmo que seja impossível saber onde vai se materializar cada uma individualmente. No mundo quântico a lógica mostrava ser outra, e o determinismo cedia lugar a ocorrências aleatórias.

Ao findar a década de 20, estavam estabelecidos os princípios e as bases da mecânica quântica – aleatória e probabilística – que iria subverter a lógica usual e fazer-nos conviver com a incerteza e o paradoxo. Inicialmente, a incerteza e o paradoxo pareciam limitar-se a esse mundo submicroscópico, quase teórico e abstrato, deixando o macromundo em que vivemos sossegadamente entregue aos princípios habituais da lógica e da causalidade. Mas o próprio Schrödinger se encarregaria de nos tirar dessa ilusão, com o auxílio do seu famoso gato. Porque, como todo bruxo que se preza, Schrödinger também tinha um gato. Mesmo que fosse um gato imaginário.

O experimento proposto é apenas mental. Imagine-se um gato preso numa caixa selada onde uma fonte radioativa pode, se emitir uma partícula no prazo de uma hora, liberar a queda de um martelo que quebrará um frasco contendo um gás venenoso; se isto ocorrer o gato morrerá; se não, o gato estará ainda vivo, decorrido esse prazo. Essa disposição põe algo do macromundo – a sobrevivência do gato – como dependente de algo que ocorre no micromundo dos eventos quânticos. Se a fonte radioativa estiver calibrada para 50% de probabilidade de liberar sua partícula fatal nesse prazo de uma hora, o pobre gato terá 50% de chances de estar vivo no fim do período. A teoria quântica não permite prever se a partícula será liberada ou não; ela diz apenas que as chances disso acontecer são de 50%. De acordo com a sentença do mestre Bohr, até que transcorram os sessenta minutos cruciais não poderemos falar de um gato vivo ou morto, porque isto não foi objeto de uma observação, indispensável para que a partícula radioativa optasse pelo seu estado – liberado ou não – que por sua vez acionaria o dispositivo, matando ou não o gato. Enquanto não abrirmos a caixa, procedendo então à observação, o gato não estará nem vivo nem morto, segundo a interpretação de Niels Bohr (também conhecida como interpretação de Copenhague). O estado do gato, antes que se abrisse a caixa, teria que ser descrito por uma equação de onda apenas probabilística, incapaz de determinar se ele estaria vivo ou morto. Mas, independente de sabermos ou não o seu estado, como estaria objetivamente o gato? Resposta: o gato estaria num estado simultaneamente vivo e morto, uma vez que não teria havido o colapso da função de Schrödinger e ele poderia assumir qualquer das duas condições, quando a caixa viesse a ser aberta.

A nossa razão insiste em que a sorte do gato já estaria decidida antes da caixa ser aberta, que seria apenas a verificação de um fato ocorrido anteriormente. “Não é assim!”, declara enfaticamente mestre Niels Bohr. Os experimentos, os cálculos matemáticos e toda a formulação teórica da física quântica garantem que a função de onda não pode colapsar sozinha, sem a interferência de um observador. Portanto a partícula não pode decidir se é liberada ou não e o gato não pode assumir uma condição definitiva, seja morto ou vivo.

Mas, afinal, qual o status existencial do gato, nesse período crucial de uma hora? Heisenberg responde, apelando para um antigo conceito de Aristóteles: ele permanece num estado potencialmente morto e potencialmente vivo, sem assumir definitivamente qualquer das duas condições. Pobre gato de Schrödinger! Para que foi meter-se com um bruxo? Agora não consegue sequer saber se está vivo ou morto.

O que ocorreu com o gato, submetido a esse cruel experimento – felizmente imaginário –, ocorre frequentemente não apenas com os elétrons, fótons e todas as partículas do mundo quântico, como também com vastos segmentos da nossa realidade macroscópica, quando não estamos observando. Experimentos recentes, efetivamente realizados, e não apenas imaginados como esse do gato, mostram de forma contundente que a esquizofrenia quântica espalha-se pelo mundo que habitamos, em desvãos insuspeitados do cotidiano, desde que não estejamos observando!

A inacreditável capacidade de um elétron para passar simultaneamente por dois orifícios, um ao lado do outro, é fato corriqueiro entre os pesquisadores, assim como a louca propriedade da luz de assumir sua máscara de vibração, ou de projétil, conforme o experimento a que esteja sendo submetida. Nos laboratórios de interferometria óptica, em que se têm utilizado interruptores de extraordinária precisão, capazes de comutar a passagem de um raio de luz abrindo ou fechando 300 milhões de vezes por segundo, tem-se verificado que a luz pode trocar a sua máscara com velocidade ainda maior, alterando, inclusive, a face que tinha assumido um nanossegundo antes, para se compatibilizar com o resultado de um experimento que só funcionaria se a máscara fosse a outra.

Muitos cientistas, aferrados à lógica que aprenderam e às noções clássicas de realidade objetiva, fizeram grandes malabarismos mentais e experimentais para salvar as aparências e tentar provar que as loucuras do mundo quântico não se estendem ao nosso mundo de todos os dias. Em vão. A cada novo experimento, a cada novo teorema matemático, consolida-se a certeza de que teremos que rever substancialmente as nossas concepções do que seja a realidade, do que seja a noção de localidade de um evento físico, do que seja o observador – que prefiro chamar de subjetividade – e de como se processam suas interações com o mundo dito objetivo.

Neste sabá quântico, os bruxos matemáticos são os mais perigosos. Eles costumam demonstrar suas maldições, tornando-as impossíveis de exorcizar. O alemão Kurt Gödel demonstrou, em 1931, o teorema da incompletude – que em seu inocente enunciado diz que não se pode construir uma aritmética apoiada num sistema de axiomas que seja ao mesmo tempo consistente e completa. Tal como na maldição de Heisenberg, é preciso optar: ou a aritmética é consistente (não contraditória), ou ela é completa; nunca as duas coisas ao mesmo tempo. Isto quer dizer simplesmente que o conhecimento racional tem um limite: ele nunca será completo e sem contradições(*). Terrível, não?

Von Neumann, o megabruxo matemático que inventou o computador moderno, publicou em 1932 um portentoso tratado chamado Die Mathematische Grundlagen der Quantenmechanik(**) que logo passou a ser venerado como “a Bíblia da física quântica”. Nele, von Neumann simplesmente demonstra que, se a física quântica está correta, o mundo não pode ser feito de objetos comuns, reais, objetivos. Ele chegou a sentenciar que “os objetos físicos não têm atributos, se um observador consciente não estiver olhando para eles”. Isto é conhecido como “a prova de von Neumann”. Não seria mais adequado chamá-la de “a maldição de von Neumann”?

Mais recentemente, outro perigoso bruxo matemático que se chama candidamente John Bell demonstrou de forma irretorquível que “nenhum modelo local da realidade pode corresponder aos fatos quânticos”. Ou seja, a realidade, se quiser existir, deve ser não-local: os seus eventos e fenômenos devem sofrer influência de tudo mais que existir no universo, até da galáxia mais remota;(***) essa influência é instantânea, sem se limitar às imposições restritivas da teoria da relatividade. Com esta proeza ele mostrou que o seu poder é maior que o de Albert Einstein que, com aquele ar de vovozinho simpático nunca chegou a ser um bruxo de verdade. Nos anos trinta, ele se juntou a Boris Podolsky e Nathan Rosen para propor um experimento mental – ele adorava experimentos mentais – que mostraria pelo absurdo que a teoria quântica era falha ou incompleta. Com o tempo e a ação de bruxos mais poderosos o absurdo revelou-se verdadeiro e o feitiço dos três virou contra os feiticeiros: provou-se o contrário do que eles queriam. Às vezes, penso que isto ocorreu com Einstein porque, tendo sido um dos pais da teoria quântica – até a palavra quantum foi proposta por ele –, depois rejeitou-a, e até o fim de sua vida nunca lhe perdoou o que considerava ser seu mau comportamento e suas idéias anarquistas. Que isto sirva de lição para tantos pais que se recusam a entender as novas gerações.



(*) Stanley Jaky, em seu  livro The Relevance of Physics, [A Importância da Física] diz que “Com base no teorema de Gödel, parece que os fundamentos últimos das audaciosas construções da física matemática permanecerão encerrados para sempre naquele nível mais profundo de pensamento caracterizado tanto pela sabedoria como pela ambigüidade das analogias e intuições. Para o físico especulativo, isso implica que há limites para a precisão da certeza, que até no puro pensamento da física teórica está presente uma fronteira, como em todos os outros campos da especulação.” (Citado por John D. Barrow em Theories of Everything [Teorias de Tudo]).

(**) Os Fundamentos Matemáticos da Mecânica Quântica.

(***) Com algumas décadas de antecedência, Ernst Mach intuiu o mesmo princípio, conhecido como princípio de Mach.

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6 – O sumiço da realidade

E agora, que fim levou a realidade objetiva onde todos costumávamos nos apoiar? É dramático. Muitos cientistas sérios continuam investigando seu sumiço. Quase todos acham que os mistérios quânticos têm uma só interpretação – a sua – e nem sequer querem discutir opiniões discordantes. O problema é que há muitos partidos nessa política quântica; todos acham que têm razão e não tem havido acordo entre os pontos de divergência. Até os críticos mais isentos, como meu amigo Nick Herbert, consideram incompatíveis posições que talvez – acho eu – não sejam tão inconciliáveis assim.

Em seu livro Quantum Reality(**) de 1985, Nick relaciona sete partidos atuantes na política quântica; considera-os incompatíveis entre si e nos deixa a responsabilidade de decidir qual a interpretação correta de tudo isso que vem acontecendo. Vejamos a descrição sumária do que propõe cada um deles, quem são seus líderes e correligionários mais influentes.

 

Realidade #1  A interpretação de Copenhague.

Líder:               Niels Bohr.

Doutrina:        1. Não existe realidade na ausência de uma observação.

                        2. O ato de efetuar uma observação cria a realidade.

Partidários ilustres: Heisenberg, Fred Wolf, David Mermin, Sir Rudolf Peierls, John Wheeler.

Comentário:   Por larga margem é o partido majoritário na comunidade científica; tem duas facções principais: os moderados, que acham que só a microrealidade é criada pelo observador e os radicais, que afirmam que mesmo a macrorealidade do mundo quotidiano é criada pelo ato da observação. Em seu livro, Nick Herbert considera essas duas facções como partidos diferentes.

 

Realidade #2  Os holistas.

Líder:               Walter Heitler.

Doutrina:        1. A realidade é um todo indivisível.

                        2. Sujeito e objeto são partes inseparáveis um do outro.

Partidários ilustres: David Bohm, Fritjof Capra.

Comentário:   Trata-se de um grupo amplo e liberal, especialmente com seus correligionários, que, por vezes, defendem outros partidos sem, no entanto, renunciar à sua doutrina. Comenta-se que o holismo tem simpatizantes infiltrados em outros partidos, que não se declaram por medo de serem xingados de místicos.

 

Realidade #3 O jardim dos caminhos que se bifurcam.

Líder:               Hugh Everett III.

Doutrina:         1. A realidade consiste num crescente número de universos paralelos criados a cada ato de observação ou medição.

       2. Em cada situação onde vários resultados sejam possíveis, todos efetivamente se realizam, cada um deles em seu próprio universo.

Partidários ilustres: Paul Davies, David Deutsch, Bryce DeWitt.

Comentário:   Proposto em 1957 por Hugh Everett, substitui o conceito de universo pelo de multiverso: o colapso da função de onda ocorre em todas as opções possíveis, cada uma gerando uma nova cópia do universo, que se multiplica em proporções fantásticas mas, segundo a doutrina, “nós só temos consciência de uma das cópias”. Apesar de chocante e inaceitável pelo nosso pobre bom senso, é a interpretação mais direta e isenta de contradições da teoria quântica.

 

Realidade #4 Uma nova lógica.

Líder:               John von Neumann.

Doutrina:        1. O mundo quântico obedece a uma forma não-humana de racionalidade.

                        2. É preciso aprender a pensar quantum-logicamente.

Partidários ilustres: Garrett Birkhoff (sócio fundador), David Finkelstein.

Comentário:    Os objetos comuns do mundo quotidiano obedecem a uma lógica racional e aceitável pelo bom senso, que foi codificada no século dezenove por George Boole. Von Neumann e Birkhoff propuseram, em 1936, que a compreensão dos fenômenos quânticos exigiria subverter a lógica booleana. O eleitorado desse partido é pequeno, porque exige dos seus adeptos uma inteligência não-humana.

 

Realidade #5 Os neo-realistas.

Líder:               Albert Einstein (honorário).

Doutrina:         1. O mundo é feito de objetos comuns e estes, por sua vez, são feitos também de microobjetos comuns.

      2. Falta alguma coisa na teoria quântica para que ela se torne causal e não probabilística.

Partidários ilustres: Max Planck, Erwin Schrödinger, Louis de Broglie (no início e no fim da sua carreira, mas passou vinte anos filiado à Realidade #1), David Bohm (vinculado também ao partido holista).

Comentário:   Reduto conservador dos remanescentes inconformados da física newtoniana-cartesiana, tem o destaque honorável de Albert Einstein que, como já vimos, rejeitou sua filha e por isso talvez ainda esteja penando no purgatório, apesar de ser uma alma tão boa. Ser um neo-realista, dizer que o mundo é feito de objetos comuns, que o bom senso pode aceitar tranquilamente, é cometer a mais negra das heresias, segundo Nick Herbert. Todos os partidários ilustres da Realidade #5 já morreram.

 

Realidade #6 A consciência criadora.

Líder:               Eugene Wigner.

Doutrina:        1. A realidade é criada pela consciência.

      2. Os objetos físicos não têm atributos, se um observador consciente não estiver olhando para eles.

Partidários ilustres: Von Neumann (lidera também o Realidade #4, mas seu coração está aqui, na Realidade #6), Walter Heitler (outro que joga em dois times), Fritz London, Henri Pierce Stapp.

Comentário:   Se o eleitorado que estamos considerando incluísse os não-físicos e também os não-cientistas este seria sem dúvida o maior partido, porque grande parte dos que não têm receio de serem chamados de místicos adere francamente a esta interpretação do mundo. Mesmo assim, percebo que o partido da Realidade #6 vem crescendo, neste início de século e de milênio, à medida que os experimentos, os teoremas e o sentimento dos cientistas – é claro que nós temos sentimentos! – apontam cada vez mais nessa direção.

 

Realidade #7 O duplo mundo potencial/efetivo.

Líder:               Werner Heisenberg.

Doutrina:        1. O mundo tem dois aspectos, um potencial e outro efetivo, real.

      2. A realidade efetiva emerge de um estado anterior, potencial, uma nova espécie de existência física.

Partidários ilustres: ?

Comentário:   Ao reviver o conceito platônico de existência potencial como uma nova acepção do que seja existir, Heisenberg reconhece que a dualidade polarizada entre o existir e o não-existir é demasiado grosseira para conter todas as nuanças do Ser. A noção de existência potencial corresponde ao estado das entidades quânticas antes do colapso da função de onda. Não tem seguidores declarados porque, na verdade, não é um partido, mas uma concepção que pode ficar subjacente à doutrina de vários partidos quânticos, como efetivamente acontece.

 Depois de examinar com isenção de ânimo essas interpretações, ocorre-me a sensação de que todas elas estão certas e que as incompatibilidades são mais um sintoma de teimosia filosófica do que algo inconciliável. Acredito seriamente ser possível posicionar-me numa espécie de singularidade imaginária, onde as diferenças de interpretação percam o significado e possamos ver que todas estão corretas, cada uma com seu modo peculiar de ver e interpretar. Foi com essa disposição que desenvolvi, na estimulante companhia de Sir Philip Quarks, a nossa teoria da consistência relacional, que deixa de assumir o que se costuma chamar de um ponto de vista para adotar o que melhor se poderia chamar de um campo de vista, sem ponto de vista privilegiado. Evidentemente, a expressão precisa dessa concepção somente é possível na linguagem matemática, que não pretendo empregar agora, conforme recomenda a comissão organizadora. Mas estou certo de que me farei compreendido na simples e direta linguagem coloquial.

Partimos do pressuposto básico de que a totalidade compreende duas vertentes, que chamaremos de vertente real e vertente imaginária. A primeira é o locus existencial do mundo objetivo, manifesta-se primordialmente nas três dimensões do espaço e a ela aplica-se o verbo existir; compreende em linhas gerais o universo físico e o mundo material ocupado por objetos. A segunda vertente, complementar à primeira, é o locus existencial do mundo subjetivo, manifesta-se principalmente nas três dimensões do tempo e a ela aplicaremos o neologismo inistir; compreende o mundo mental, psíquico ou espiritual e é centrado necessariamente numa subjetividade (consciência), sendo ocupado por subjetos. A vinculação predominante dessas vertentes às dimensões do espaço (real) e do tempo (imaginário) não significa que não possam manifestar-se na tríade dimensional que não lhe é peculiar: isso ocorre com frequência, por processos de projeção geométrica. Essas duas vertentes não são pólos segregados, mas estão em constante interação, havendo entre elas todo um espectro de entidades complexas, formadas por uma parte real e outra imaginária, em diferentes proporções.

Admitindo-se a inistência das subjetividades, como face imaginária da totalidade, compreende-se que não faz sentido declarar que algo existe se essa existência não for referida a pelo menos uma subjetividade. A presença de uma subjetividade é, portanto, indispensável para que alguma coisa exista, e essa coisa pode ser o universo físico que ela pode conceber, em sua integridade.

 Tenho a satisfação e a honra de lecionar na Universidade do Texas, em Austin, na companhia de alguns dos nomes de maior destaque da física contemporânea. Em nosso campus conversa-se e debatem-se as interpretações quânticas e seus paradoxos com o mesmo entusiasmo que em outros lugares discute-se beisebol ou política. Nesse clima efervescente, muitas proposições surgem e se desenvolvem como embriões de possíveis teses, sendo que muitas propostas permanecem no ar, sem chegarem a uma formalização, talvez porque envolvam conceitos e pressupostos não físicos, que poderiam comprometer a carreira de quem as defendesse. Mas, seguindo os exemplos de ousadia que nos vêm da Universidade do Colorado e de outras instituições de vanguarda, resolvi arriscar o sabor da liberdade de pensar, sob a liderança do meu prezado amigo Sir Philip Quarks. Sabendo o que estou desafiando e os riscos que corro, prossigo minha exposição, numa investigação em que estou rompendo com as bases gregas do meu próprio pensamento.

Em Austin, a interpretação de Everett é muito popular. Os estudantes circulam usando camisetas com dizeres pitorescos sobre os muitos universos e suas curiosas consequências. Sir Philip e eu, ao adotarmos um “campo de vista” sem pontos privilegiados, evidentemente consideramos o multiverso de Everett como uma proposta séria, mas fazemos uma ressalva crucial, que é a base do nosso achado: não são todos os universos potenciais que são efetivados, mas tão somente aqueles centrados em subjetividades. Cada subjetividade é o centro de um universo real em processo evolutivo, o seu universo privado de miséria ou de glória, de frustração, de dúvidas ou de plenitude. Existem tantos centros geradores de universos quantas forem as subjetividades, em todos os astros culturados do cosmos. Cada um de nós vive seu próprio universo paralelo, em constante desdobramento, que somente se assemelhará aos das demais subjetividades se houver interação entre elas, e na medida da intensidade dessa interação. Ademais, cada subjetividade tem seu tempo próprio e constrói sua própria realidade no fluxo cronolinear em que aparentemente vivemos.

“Mas... não existe uma realidade objetiva, comum a todos e que nos serve de referência?” – é a pergunta ingênua que fica no ar. “Não! Não é assim!”- respondo com a mesma ênfase de Niels Bohr. Aquilo que nos parece ser uma realidade comum a todos é um constructo meramente consensual, resultante da sequência inumerável de colapsos das funções de onda que vamos provocando para a construção da realidade, e que resulta na ilusão coletiva de uma seta do tempo, linear e de mão única. Cada subjetividade vive seu próprio tempo linear, que apenas se ajusta aos demais que com ela interagem; não existe um tempo linear único e objetivo, comum a todos.

“Mas... como essa ilusão pode ser tão perfeita que existam efetivamente consequências objetivas e comprovadamente causais para os nossos atos?” Resposta: porque neste fantástico multiverso tudo se encaixa com perfeição pelo princípio de consistência, que não permite atropelos nas infindáveis sequências paralelas e divergentes dos sucessivos colapsos de inumeráveis funções de onda. Como disse meu querido colega e amigo David Deutsch, de Austin: “A realidade física é o conjunto de todos os universos que evoluem coletivamente, tal como numa máquina, em que algumas rodas dentadas estão ligadas a outras rodas dentadas; não é possível mover uma sem afetar as demais.” Eu só faria uma ressalva ao David: é que isso não se restringe apenas à realidade física, mas a todo o complexo real/imaginário que constitui o viver de cada um de nós, as nossas linhas-mundo, os nossos munditubos.

Para concluir, quero deixar claro que a caracterização do que seja uma subjetividade, a delimitação do que é ou não é uma subjetividade, constitui-se num problema ainda em aberto, ainda por estudar e definir. Mas, como ponto de partida, sugiro que se defina subjetividade como uma entidade que tem a propriedade específica de colapsar funções de onda, tornando existente algo que inistia num estado potencial. A partir daí pode-se formar uma nova base conceitual para melhor compreender o que sejam a inteligência, a consciência, o espírito individual.

Creio, minhas senhoras e meus senhores que, com a única exceção da ingênua heresia neo-realista, a proposta que desenvolvi com Sir Philip Quarks satisfaz e concilia as diversas interpretações dos paradoxos quânticos, tornando-as compatíveis e consistentes, diferentes enfoques de uma mesma coisa.



(**) A Realidade Quântica

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Referências bibliográficas:

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