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Um Simpósio Científico em 2008

SEGUNDA ETAPA

Do Espaço Cósmico à Nova Realidade

 

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Subtópicos

1 – Visualização

2 – Modelo Planetário

3 – Modelo Galáctico

4 – Modelo Cósmico

5 – E para além disso?

Referências bibliográficas

 

#04 - O Espaço Cósmico

Visualizando o universo em duas trocas de escala

Iris Magnólia Grandiflora – Universidade Federal do Paraná – Brasil

 

1 - Visualização

Já se disse que esta é a era da imagem. Cinema, televisão, videojogos, Internet e monitores de vídeo para quase tudo fornecem todos os dias uma superabundância de imagens que muito me preocupa, porque elas se tornam um substitutivo para a capacidade de visualizar com nossos próprios recursos mentais. Estudos já demonstraram que as crianças submetidas a uma exagerada exposição à televisão têm dificuldade para cultivar o hábito da leitura de ficção, porque de certa forma ficam com sua capacidade de imaginar prejudicada pela falta de exercício: se o vídeo já fornece as imagens prontas, então por que realizar o esforço de criá-las? Este é um problema que deve ser encarado com a mesma seriedade que uma atrofia de qualquer órgão essencial do corpo.

Aliás, convém registrar que a televisão e o cinema não são a causa da pequena capacidade de imaginar do ocidental, mas são fatores que agravam uma deformação cultural antiga. Lembremo-nos que Platão colocava a imaginação no nível mais baixo entre as faculdades mentais, e Hume chegou a dizer que “nada é mais perigoso para a razão do que os vôos da imaginação”. Mesmo as pessoas de mais idade, cuja educação se processou em época anterior a esta “era da imagem”, têm dificuldades para visualizar com clareza. Quem tem uma aptidão inata geralmente segue as profissões em que essa facilidade é mais exigida, mas quem não a tem fica em desvantagem no exercício de uma atividade como, por exemplo, a arquitetura, porque não se utilizam técnicas e exercícios para seu cultivo, como parte do currículo. Talvez esta seja uma possível explicação para a baixa qualidade estética da maior parte do que se constrói atualmente; a atrofia da capacidade de visualizar anda pari passu com o empobrecimento da sensibilidade e da criatividade. Essa deficiência endêmica é um testemunho do desprezo com que os recursos potenciais da mente são tratados pelos sistemas educacionais do Ocidente.

A dificuldade maior para a adoção de medidas mais sadias de desenvolvimento da imaginação está, antes de tudo, no reconhecimento da importância dessa função mental, no mesmo nível que a inteligência, a abstração, a memória e a sensibilidade artística. Quando uma consciência deste problema estiver mais difundida e os determinantes comerciais que orientam a produção dos seus programas de grande audiência tiver se diluído, a própria televisão poderá vir a ser um meio para ensinar e estimular a habilidade individual de produzir mentalmente imagens visuais.

Hoje, eu pretendo mostrar como a capacidade de criar e fixar imagens pode permitir, a qualquer pessoa que não se canse facilmente com um esforço mental moderado, criar uma visão clara do Sistema Solar, da nossa galáxia – a Via Láctea – e do próprio universo, tudo isso em escala, nas proporções que a ciência e as observações astronômicas estabeleceram como reais. Quem praticar essa visualização poderá estar ciente de que tem uma idéia bastante aproximada do tamanho do universo e das dimensões e posições relativas dos seus conteúdos principais. Quem tiver em mente os modelos imaginários que construiremos poderá localizar com alguma precisão os planetas do Sistema Solar, os objetos que existem na galáxia que habitamos, e até mesmo o tamanho e posições das galáxias mais distantes, quasares etc.

Evidentemente, para que se possa fixar na mente esses modelos, é indispensável ter interesse pelo tema e uma acesa curiosidade intelectual que, acredito, é o caso dos participantes desta reunião. Do meu ponto de vista pessoal, considero extremamente agradável poder fazer uma idéia em escala do que é o universo físico concebido pela ciência. Espero que o mesmo ocorra com vocês.

Construiremos na mente três maquetes, em escalas diferentes, mas relacionadas entre si, que podemos batizar de Modelo Planetário, Modelo Galáctico e Modelo Cósmico. Suas dimensões reais crescem muito de cada um deles para o modelo seguinte, mas todos três serão perfeitamente visualizáveis nas escalas que adotaremos.

Quase todas as pessoas têm medo dos grandes números que caracterizam as medidas astronômicas, e isto é perfeitamente compreensível. Se podemos fazer uma idéia razoável, ter o sentimento perceptivo dos doze mil quilômetros de diâmetro do planeta Terra, fica muito mais difícil fazer uma idéia do que sejam os cento e cinquenta milhões de quilômetros que nos separam do Sol. É uma ilusão escrever um grande número, da ordem dos bilhões ou trilhões e achar que se “sabe” o que representa. Sabe-se, por exemplo, que um ano-luz tem cerca de dez trilhões de quilômetros, mas quem faz idéia do que seja um trilhão de quilômetros? A resposta normal é que um trilhão é um número representado pelo algarismo 1 seguido de doze zeros. Isto não nos deixa ver o que seja um trilhão, mas apenas ter acesso à sua representação simbólica.

Em face desta dificuldade, uma coisa que deixaremos de lado na criação de nossas maquetes será a menção a milhões e bilhões de quilômetros ou anos-luz, a não ser como informação auxiliar que deve ser esquecida quando mentalizarmos os modelos. Trabalharemos apenas com milímetros, metros e alguns quilômetros, medidas que “cabem” perfeitamente na cabeça de qualquer um. Como veremos, para que seja possível uma visualização de qualquer dos três modelos será indispensável imaginar algo na escala dos quilômetros, o que torna inviável a construção física de qualquer dessas maquetes. Elas terão que ser apenas imaginadas, mas isso será fácil.

O primeiro modelo será o do Sistema Solar, que será montado com objetos que nos são familiares no mundo cotidiano. Alguns deles serão bem pequenos, mas isto é indispensável para que a maquete não fique grande demais. Teremos que visualizar atentamente certos objetos pequenos que vemos na vida cotidiana, e isso será um bom exercício para o ato de ver, porque não poderemos imaginar bem se não nos habituarmos a ver bem. E, muitas vezes, objetos bem pequenos são reveladores de um peculiar mundo estético que distraidamente desprezamos. Quem já pegou uma pitada da fina areia branca de uma praia para examinar com atenção e descobrir que nem todos os grãos são brancos? Mesmo sem o auxílio de uma lupa pode-se ver que existem grãos de diversas cores, com a predominância dos branco-translúcidos e castanhos. Os primeiros são fragmentos de quartzo, moídos pelo tempo, desde as origens do mar e das praias, na infância do nosso planeta, e os castanhos são pedacinhos triturados de conchas e carapaças animais, de organismos que viveram há dezenas ou centenas de milhões de anos. Quem se lembra, andando por uma praia num domingo de sol, que está pisando em milhões e bilhões de anos da história da Terra, inclusive da sua história viva? Ter isto em mente é muito bom para nos recordar que estamos cercados pela eternidade, mas não a vemos somente por falta de atenção. Mas deixemos a eternidade e vamos à imensidade, que é a nossa viagem e a nossa meta.

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2 – Modelo Planetário – Escala: 1 metro = 10 milhões de Km

Para fazermos a maquete do Sistema Solar, que denominamos Modelo Planetário, nada mais natural do que começar pelo nosso planeta natal, a Terra, um dos seres mais belos de toda a criação, que temos o privilégio de habitar. As maravilhosas fotografias da Terra, que enchem de pasmo e humildade os corações mais sensíveis, nos mostram uma belíssima esfera azul e branca, faiscante em reflexos e transparências, obviamente um ser vivo, uma deusa flutuando na imensidade. Mas, como temos que apresentá-la em escala compatível com seu pai, o Sol, seus irmãos planetas e suas dezenas de sobrinhos satélites, será necessário esquecer provisoriamente alguns aspectos de sua beleza e tomarmos um confeito azul para bolo de aniversário, uma esfera com pouco mais de um milímetro de diâmetro para representá-la no grande palco que vamos armar. Ao pegar nesse confeito com seus dedos gigantescos, cuidado! Ele é úmido e está povoado de microorganismos, alguns deles pensantes e pretensiosos, orgulhosos do seu minúsculo saber. Para não causarmos uma mini-catástrofe, é melhor tocar nele só com os delicados dedos da imaginação.

Aliás, na construção das nossas maquetes, é a força poderosa da imaginação que tudo suportará, que tudo moverá e permitirá que cada coisa permaneça em seu lugar, em sua órbita. Tudo levitará sem o menor esforço, como veremos. Usando, portanto, dessas facilidades psico-tecnológicas, pegaremos com os dedos finíssimos da mente um pequenino grão de areia, dos castanhos, com a quarta parte do diâmetro do nosso confeito natal, e cuidadosamente colocá-lo-emos a três e meio centímetros deste. Esse grão de areia será a Lua.

Quando, numa imaginária loja de doces, adquirimos o nosso confeito-Terra, compramos também um outro, do mesmo tamanho, na cor amarelo limão, e um terceiro, avermelhado e menorzinho – mas não tão pequeno quanto a Lua: serão nossos vizinhos Vênus e Marte. Antes de colocarmos esses novos confeitos em suas respectivas posições, passaremos numa loja de equipamentos elétricos e compraremos uma luminária tipo globo, de vidro branco leitoso, sem suporte nem fios, uma esfera perfeita com 14 centímetros de diâmetro. Capaz de levitar, como todos os demais componentes da maquete, ela terá uma forte luz própria sem qualquer fio que a alimente de energia. Será o pai-Sol, o rei e o centro do nosso Modelo Planetário. Em nosso pequeno estoque de grãos de areia escolheremos mais um dos castanhos, igual à Lua, mas um pouco maior, para representar Mercúrio. Agora, que já temos os componentes do Sistema Solar interior, podemos dispor todos em suas devidas posições.

Se, aqui entre os presentes, estiver alguém que aprecie os rigores da exatidão, peço-lhe desculpas, mas em nossos modelos não trabalharemos com medidas precisas, e sim com aproximações para um número fácil de lembrar. O que se perde em rigor se ganha em facilidade de memorizar; mas a diferença nunca vai ser grande e a imagem que montaremos será perfeitamente satisfatória. Dito isto, vamos arrumar o Sistema Solar interior, este que os astrônomos dizem ser ocupado pelos planetas terrestres, cujas dimensões não se afastam muito das da Terra, diferentes dos grandes, chamados planetas jovianos ou semelhantes a Júpiter, que compõem o Sistema Solar exterior.

No centro, ficará a luminária de vidro leitoso, acesa e flutuante, em nosso campo de forças imaginárias. A cinco metros dela, o grão de areia Mercúrio; a dez metros, o confeito Vênus e, a quinze metros, a Terra confeito azul, com seus micróbios, seus dramas e seus delírios, acompanhada de sua filha de areia, a Lua. E, a trinta metros da luminária, o confeito avermelhado com menos de um milímetro de diâmetro, que representará Marte. É preciso ter o cuidado de colocar cada um desses planetas em diferentes direções, mas num mesmo plano, conservando porém as distâncias da luminária central que indicamos. Só em casos raros eles se arrumam em linha – diz-se em conjunção – porque movendo-se em círculos (desculpe-me, turma da exatidão, sei que são elipses, mas são quase circulares, não é mesmo?) a diferentes velocidades, só por acaso ficarão enfileirados. Mas quem quiser imaginá-los em fila indiana também pode fazê-lo: reconheço que assim fica mais fácil formar uma imagem mental.

Concluída a montagem do Sistema Solar interior, vamos agora aos planetas jovianos, que gravitam a distâncias bem maiores da luminária central. Júpiter, o maior de todos, será representado por uma dessas bolinhas de vidro colorido com manchas ou listras que os meninos adoram, e que no Brasil e Portugal chamamos de bolas de gude. Geralmente, elas têm de um a dois centímetros de diâmetro, embora algumas, raras e belas, que fazem o orgulho de seus felizes proprietários, sejam ainda maiores, com lindas nuvens coloridas que se misturam em seu interior transparente. A bolinha de gude que vai representar o planeta Júpiter não será das maiores; terá um centímetro e meio de diâmetro e cor verde translúcido, com listras paralelas de variados matizes próximos do alaranjado e do azulado. Não é das mais comuns e certamente faria a alegria do seu dono, especialmente porque tem uma manchinha vermelha ovalada, com quatro milímetros de comprimento, talvez causada por um defeito de fabricação, que a identifica e torna mais rara.

Para fazer o planeta Saturno teremos que usar uma chupeta, das que as mamães se valem para calar os bebês e fazê-los adormecer em paz, lindos nos seus bercinhos. Será uma chupetinha das antigas, com o anteparo circular, e não dessas horríveis que imitam lábios ou corações e que surgiram depois. As chupetas de minha infância, que eu mesma colocava na boquinha de meu irmão Omar quando ele ainda era um neném rechonchudo, eram de anteparo redondo e pequeno, como as mais tradicionais e singelas. Mas nenhuma delas tinha as delicadas riscas circulares e concêntricas que lhe dariam o aspecto de um disquinho laser com apenas três centímetros de diâmetro, como a que usaremos agora para fazer Saturno. Com os delicados instrumentos imaginários que temos, retiraremos a bolinha que fica na ponta da chupeta, faremos uma cirurgia para restaurar sua perfeita esfericidade, e vamos inseri-la no orifício central, um pouco maior do que ela, que abrimos previamente no pequenino disco laser. Essa bolinha não tocará em nenhum ponto do seu anel de contorno, ficando ali pelas artes da psico-tecnologia e da levitação imaginária. Aí está Saturno no tamanho certo, com seus lindos anéis e alguns pequenos grãos de areia – alguns quase invisíveis, outros invisíveis mesmo – a pequena distância dele. Aliás, eu tinha me esquecido: a bolinha de gude também tem minúsculos grãos girando em volta dela, dos quais apenas quatro podem ser vistos claramente; os outros são pequenos demais.

Urano e Netuno serão ervilhas, mas não das maiores. A primeira, verdinha, bem lisa e perfeita, terá meio centímetro de diâmetro; a outra será um pouco menor e de cor azul, como nosso confeito habitado por vírus vaidosos. Quem já viu uma ervilha azul? Em nossa maquete existe uma e é uma gracinha: azul como o mar, certamente porque se chama Netuno. Mas Plutão é um grão de areia do tamanho da Lua, escuro e feio, acompanhado bem de perto por outro menor chamado Caronte, ainda mais sem graça; eles não serão importantes nesta maquete e seria melhor esquecê-los.

Agora, vamos à montagem do Sistema Solar exterior. A bola de gude verde com sua manchinha vermelha ficará a 75 metros da luminária-Sol; é uma distância fácil de imaginar porque é a largura de um campo de futebol oficial, de bandeirinha a bandeirinha, lá onde se cobram os escanteios, na copa do mundo. A chupeta-laser, que representa Saturno, será colocada a 150 metros do Sol, fácil de memorizar porque é dez vezes a distância do confeito-Terra para a luminária central – dez unidades astronômicas, como se diz. A ervilha verdinha e lisa que se chama Urano vai ser colocada a 300 metros do Sol, o dobro da distância da chupeta, e a singular ervilhinha azul oceano, Netuno, ficará a 500 metros da luminária, recebendo, portanto, pouquíssima luz e calor. Nesta periferia do Sistema Solar tudo é sombrio e gelado; aqui tudo é saudade das regiões mais quentes que ficaram lá longe, juntinho do amor do pai. Netuno é belo, em seu azul que imita uma grande Terra, mas para senti-lo é preciso uma atenção mais demorada, porque a luz aqui é só uma fria penumbra e só se pode fotografá-lo com um filme muito sensível em exposição prolongada.

Chegamos ao limite do nosso bairro, o Sistema Solar. Ou seria a nossa rua planetária, ou talvez a nossa quadra, casa, ou algo ainda menor, na metrópole galáctica? Veremos qual a melhor metáfora quando mudarmos de escala para conhecer o tamanho da Via Láctea. Mas vamos examinar melhor a maquete que acabamos de fazer.

O tamanho dela, o seu diâmetro, é de um quilômetro. A órbita de Plutão, que vai mais longe do que Netuno, não será considerada para a medida do tamanho do Sistema Solar. Primeiro, porque Netuno é belo e Plutão é feio, com sua desengonçada companheira; segundo, porque Netuno é grande e disciplinado, navegando lentamente numa órbita que respeita os hábitos da família, como seus irmãos interiores, enquanto Plutão gira mais torto e em sentido contrário, saindo do plano da eclíptica, estabelecido pelo pai como o caminho correto dos planetas educados; e terceiro, porque ultimamente, na sua estranha órbita desobediente e excêntrica, Plutão andou mais perto do Sol do que Netuno, mostrando que não é confiável como limite do Sistema Solar. Esqueçamos Plutão, portanto, mas sem rancor nem desprezo eterno porque isto não cabe em nossos corações.

Olhemos agora a obra que criamos, a maquete imaginária de um quilômetro de diâmetro, para sentir sua ordem e beleza, para verificar se não ficou faltando alguma coisa, se está tudo certo e no lugar. No centro, a luminária-Sol, acesa e brilhante, segurando suavemente com a força do amor – que os astrônomos chamam de gravitação – toda sua prole de planetas, a quem alimenta de luz, calor e insuspeitados benefícios sob a forma de carinhosas radiações, numa tranquila e consciente generosidade que é pura doação, sem nada exigir em troca. Uma imagem perfeita do pai que todos gostaríamos de ter, e de fato temos.

A cinco metros, um grão de areia; a dez, um confeito de bolo amarelo e quente; a quinze, o confeito azul e úmido povoado de infinitesimais partículas de sofrimento, tolice e presunção que se consomem em catastróficos micro-conflitos, ou sonham eternas beatitudes e grandezas inefáveis. A trinta metros, um confeito vermelho, que talvez no passado distante já tenha abrigado também seus vírus e seus remorsos. Depois... um grande vazio, até a simpática bola de gude verde listrada com sua manchinha vermelha brilhando como um mini-rubi. Mais além, a chupeta modificada por nossas artes e as duas ervilhas, nos limites gelados do nosso modelo. Faltou algo?

Sim, faltaram os asteróides, planetas miudinhos que ficam entre Marte e Júpiter, em órbitas alongadas e irregulares como a de Plutão, como se fossem os restos de um planeta que explodiu. Como fazê-los? Pelo seu tamanho, não podem ser visíveis na maquete, mas temos que arranjar algo que os represente, porque eles existem. Peguemos um grão de areia, do mesmo tamanho daquele que faz o papel da Lua, e cuidadosamente coloquemo-lo sobre uma chapa de aço polido. Em seguida, com um martelo imaginário, num único golpe seco e rápido, vamos esmigalhá-lo impiedosamente, como se estivéssemos nos vingando de algum pecado imperdoável que ele tivesse cometido (e como saber se de fato não o cometeu, para ter explodido assim, em milhares de estilhaços e fragmentos?). Que obteremos? Um pó finíssimo que ao microscópio mostrará partículas de variados tamanhos, quase uma poeira sideral. Agora, com os instrumentos psico-tecnológicos de que dispomos, vamos espalhar esta micro-farofa no espaço intermediário entre Marte e Júpiter, procurando fazê-lo de forma a ocupar com relativa uniformidade todo o círculo de 40 a 60 metros de raio onde ela ficará distribuída. Se alguns micro-grãos escaparem para mais longe, não se preocupe, eles são assim mesmo. Essa poeira miúda e rarefeita não será visível, mas saberemos que ela está lá e isto nos basta.

Agora, o Modelo Planetário está completo a não ser por alguns componentes de menor importância, que não pretendemos representar. Podemos contemplá-lo em sua simplicidade e beleza, mas precisaremos nos deslocar, em espírito, para perto de cada um dos seus componentes, porque não é possível enxergar um grão de areia ou um confeito a centenas de metros de distância. Nem mesmo uma bola de gude, ou uma chupeta. Um quilômetro de diâmetro, mas tão escasso que um apressado viajante interestelar certamente passaria pelo Sol sem sequer reparar que ele tem uma simpática família de minúsculas bolinhas, quase invisíveis. Somente a vistosa luminária acesa seria notada. Este, no entanto, é o nosso bairro. Ou nosso quarteirão, na grande metrópole sideral que habitamos. Ou muito menos que isto, nas vastas proporções da magnífica Via Láctea. Para termos uma idéia clara da nossa insignificante humildade na imensa roda-gigante onde fica nosso endereço cósmico, vai ser preciso dar um salto muito grande para a escala do modelo seguinte. Ah! Um salto muito grande.

Quando eu era mocinha, li um conto fascinante de Arthur Clark, onde ele descreve a primeira descida de um homem na atmosfera de Júpiter. Depois da longa viagem numa nave interplanetária, com alguns companheiros, que estaciona em órbita do grande planeta, ele se precipita sozinho, no interior de uma cápsula individual que, entrando tangencialmente na alta atmosfera do grande planeta, tem sua velocidade freada pelo atrito, num agudíssimo assobio, passando em seguida ao estágio de queda livre na poderosa gravidade de Júpiter, por muitas centenas de quilômetros, até as proximidades do limite superior das grandes nuvens coloridas. Nesse ponto, desprende-se da cápsula um pára-quedas que pouco depois transforma-se num balão, iniciando uma navegação suave na atmosfera transparente e permitindo uma visão fascinante das montanhas de nuvens de variadas cores e texturas, lá embaixo. O ponto a ressaltar é a impressão do herói de que não é o planeta que se mostra gigante, e sim ele próprio que diminuiu de tamanho, quando se dá conta de que as nuvens abaixo não estão a dois quilômetros de distância, como parece, e sim a vinte! E os clarões de uma feérica tempestade elétrica que parecem estar a vinte quilômetros, seus instrumentos indicam estar acontecendo a mais de duzentos quilômetros. Então ele sente, com inquietação e angústia, que encolheu para o tamanho de um pardal, dentro daquele cenário fabuloso.

Nesta viagem também experimentaremos a impressão subjetiva da relatividade do nosso tamanho, só que em escalas muitíssimo maiores. Enquanto percorremos e observamos a maquete do Sistema Solar, sentimo-nos verdadeiramente gigantescos; quando visualizamos com suficiente realismo os diversos planetas, nos seus tamanhos e distâncias corretos, é o nosso espírito quem cresce para dimensões portentosas. O espírito existe primordialmente no tempo: no espaço tridimensional ele é apenas uma projeção, como explicou hoje o Professor Weisskopf, e por isto não tem escala fixa. O tamanho do nosso espírito é o tamanho do que pensamos.

Agora, temos que nos preparar para dar um vertiginoso zoom no Sistema Solar e assumir a escala seguinte, que nos permitirá conscientizar – num susto – as dimensões inacreditáveis da Via Láctea, a metrópole cósmica onde residimos. A sensação vai ser parecida com uma queda livre na atmosfera superior de Júpiter.

Saindo para uma viagem galáctica, devemo-nos despedir do sistema estelar em que moramos, com uma derradeira olhada para a luminária-Sol e sua ninhada. Com o espírito ampliado para um tamanho compatível com a contemplação dos planetas, vamos movimentar-nos, flutuando neste círculo de um quilômetro, e visitar cada ervilha, a linda chupeta irisada e a bola de gude, os estilhaços invisíveis do planeta que explodimos, os confeitos e os grãos de areia. Apreciemos e memorizemos seus tamanhos, suas texturas e cores, suas distâncias relativas entre si e para a luminária central. É bom levar um pouco de saudade no coração porque viajaremos para muito longe. Ou melhor: nosso espírito, que já tinha crescido tanto, vai se expandir mais uma vez, agora numa proporção fantástica – mas ainda concebível.

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3 – Modelo Galáctico – Escala: 1 metro = 1 ano-luz

Acionando os controles do nosso zoom imaginário, vamos reduzir o Modelo Planetário para um milímetro de diâmetro. É vertiginoso, mas indispensável que o façamos, do contrário não poderemos ter uma idéia nítida do tamanho da Via Láctea. Em poucos segundos, a redução é completada; um milímetro é bem pequeno, mas é uma dimensão que ainda temos sob o controle da imaginação e da consciência. Já não podemos ver o que ficou dentro do Modelo Planetário, mas sabemos que tudo aquilo está lá; apenas a luminária-Sol permanece, infinitesimal, mas com seu brilho ainda visível, desde que não nos afastemos muito. A trezentos metros de distância já não poderíamos vê-la; quase tudo que vemos a olho nu no céu noturno está a menos de quinhentos metros de nós.

Nesta escala o Modelo Galáctico tem cem quilômetros de diâmetro. Este é o tamanho da Via Láctea, se o Sistema Solar medido pela órbita de Netuno, aquele mesmo Sistema Solar que na escala anterior tinha um quilômetro de diâmetro, for reduzido, num estonteante zoom, para apenas um milímetro.

Quando eu me iniciei na astronomia, residia na cidade de Salvador, capital do estado brasileiro da Bahia, e frequentava o Observatório Antares, que fica em Feira de Santana, a cem quilômetros por auto-estrada no caminho do sertão. Durante muitos meses fiz esse percurso no meu carrinho, quando o tempo estava bom e as noites sem luar prometiam uma boa visibilidade. Enquanto dirigia, ao cair da tarde, costumava superpor as imagens reais da paisagem, em que se sucediam indústrias, pastagens e ondulantes canaviais ao vento, às cenas de uma viagem imaginária cruzando a Via Láctea de um extremo a outro. Na minha fantasia eu saía da borda mais próxima ao lugar onde fica o Sol, passava no meio de miríades de estrelas, pontinhos faiscantes infinitamente menores do que vaga-lumes, muitas delas jovens e azuis nos braços espiralados, outras mais velhas e alaranjadas, reunidas às centenas de milhares nos aglomerados globulares próximos à minha rota ou acima e abaixo do plano galáctico, como núcleos suburbanos da grande cidade. Cruzava velozmente manchas de gás e poeira em brilhante fluorescência, atravessando berçários de estrelas, como a nebulosa avermelhada de Orion, a mil e trezentos metros do Sol, uma antiga paixão das minhas primeiras observações. Supunha perigosos e infinitesimais pulsares girando alucinadamente e emitindo seus sinais intermitentes, como faróis galácticos que de fato são, e passava perto de traiçoeiros buracos-negros, que eu não podia ver da minha nave-fusca, mas que nunca chegaram a me prender irresistivelmente num abraço mortal.

Perto do entroncamento para Santo Amaro ficava o núcleo da galáxia; aí as estrelas estavam bem mais próximas, a cerca de um metro umas das outras, e não quatro ou cinco metros em média, como nos braços espirais onde fica o Sol. No centro da minha Via Láctea, onde a densidade de estrelas era máxima, estava de tocaia – disto eu tinha certeza – um colossal, mas invisível buraco-negro, a devorar implacavelmente as estrelas imprudentes que se aproximavam da sua poderosa armadilha gravitacional e que, no desespero da agonia, emitiam lancinantes gritos de horror nas faixas espectrais das ondas de rádio. Ao passar por esse lugar assustador eu suava frio, ao pensar nos milhões de planetas culturados, inúmeras civilizações avançadas, com filósofos, poetas, arquitetos e crianças, que mergulhavam inapelavelmente, tragadas para o fundo inescrutável do imenso buraco-negro, saindo para sempre do que consideramos existência.

Cem quilômetros de diâmetro, centenas de bilhões de pontos luminosos inacreditavelmente pequenos, em sua maioria arrastando consigo um séquito de pontinhos ainda menores – de onde algo infinitesimal talvez estivesse a me observar, com algum instrumento. Na minha viagem, de vez em quando eu passava perto de lindos anéis fluorescentes, com meio metro de diâmetro, outros com um, dois metros ou mais, belíssimas nuvens remanescentes de grandes estrelas que explodiram em supernova, tempos atrás. Aqui e ali, nuvens escuras e lúgubres de matéria opaca, algumas de forma globular, com menos de um metro de diâmetro, outras esgarçadas e bem maiores, bloqueando a luz das estrelas atrás delas. Filamentos brilhantes de hidrogênio ionizado, nuvens coloridas contendo monóxido de carbono, água, cianogênio, amônia, álcool etílico, e muitas outras moléculas mais complexas com vinte, quarenta, sessenta metros de comprimento; algumas com mais de cem metros. Misteriosas regiões de poeira interestelar quase viva abrigando – quem sabe? – espantosas avantesmas de dimensões colossais.

Esta é a grande metrópole da qual somos anônimos cidadãos. A minha nave-fusca tem quatro anos-luz de comprimento, a mesma distância que separa o Sol de Alfa Centauri, sua irmã gêmea e companheira mais próxima. Ao atravessar a Via Láctea em apenas uma hora, minha nave está se deslocando a uma velocidade dez milhões de vezes maior que a da luz. Os poderes da psico-tecnologia desafiam impunemente até leis implacáveis da relatividade...

Mas é chegado o momento de mergulhar noutro zoom, porque a nossa meta é conhecer o tamanho do universo. Olhemos com carinho o Modelo Galáctico, nossa cidade natal, porque vamos prosseguir para muito mais longe, na jornada cósmica que hoje resolvemos empreender. Memorizemos cuidadosamente suas distâncias e seus conteúdos, mais belos e variados que os do Modelo Planetário. É uma alegria para o espírito ter a consciência de que sabemos o tamanho e a forma das coisas importantes da vida e do mundo, especialmente das coisas do mundo supralunar.

Mais uma vez, acionemos o botão de controle do zoom imaginário, para reduzir nossa imensa galáxia para o tamanho de um disco laser, o simpático e bem conhecido cd, essa delicada jóia tecnológica onde os mais sublimes acordes das grandes orquestras sinfônicas, ou milhões de informações codificadas em bits, são fixados indelevelmente nas cores e nos reflexos de um arco-íris artificial. Em menos de um minuto o processo de redução se completa.

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4 – Modelo Cósmico – Escala: 1 metro = 1 milhão de anos-luz

Estamos em pleno cosmos. Nosso espírito cresceu numa proporção extraordinária, entretanto concebível, como concebíveis e mensuráveis são os novos objetos que aqui vamos encontrar. No universo físico nada é infinito. Tudo que existe fisicamente tem sua duração e seu tamanho, que – embora isto seja quase inacreditável – o homem pode, ou poderá um dia, medir. Desde que seja algo reconhecível como físico, porque medir uma entidade espiritual ou psíquica é um problema que ainda espera por solução: essas entidades não são criaturas do espaço, e sim do tempo imaginário, e o tempo é um grande mistério, que não sabemos se o homem poderá um dia decifrar.

Aqui estamos nós, cidadãos de um belíssimo disco laser, a contemplar de muito alto a nossa cidade cósmica e suas vizinhanças. Logo ali vemos outro cd, um pouco maior que o nosso: é Andrômeda, outro universo-ilha, como diria Immanuel Kant na sua premonição que, com quase duzentos anos de antecipação, adivinhou o cosmos de muitas galáxias que Hubble só descobriria no século vinte.

Neste lugar e nesta escala, podemos enxergar os objetos que povoam os arredores melhor do que no Modelo Galáctico; lá tudo era microscópico ou nuvens muito diáfanas, e só podíamos ver o brilho de pontinhos luminosos praticamente sem dimensão. Aqui, as galáxias vizinhas têm um tamanho discernível: são objetos, e não pontos. E estão mais próximas umas das outras, relativamente ao tamanho de cada uma, do que as estrelas da galáxia de onde viemos, que dificilmente poderiam ser consideradas vizinhas, pela distância enorme a que ficavam umas das outras, com relação ao seu tamanho.

Estamos numa micro-região do universo: o chamado Grupo Local, que tem cerca de vinte galáxias entre grandes e pequenas. Andrômeda e a Via Láctea concentram setenta por cento da população estelar do Grupo Local e são exemplos de galáxias grandes, mas existem outras bem menores, como botões e pequenos tufos de algodão, em maior quantidade do que as grandes. Somos cidadãos de uma metrópole, mas a maior parte das cidades galácticas são médias e pequenas como, aliás, acontece na hierarquia urbana usual do planeta Terra. Logo, observamos que nossa metrópole tem dois subúrbios muito próximos, quase unidos à área urbana central, dela se distinguindo porque sua configuração é irregular como chumaços de algodão, esgarçados junto ao nosso disco laser: são as Nuvens de Magalhães. Além destas, pequenos núcleos satélites de menor escala, chamados aglomerados globulares, esféricos e avermelhados, complementam os arredores da nossa grande cidade. São aldeias suburbanas, muito redondas e organizadas, onde só moram idosos.

 A bela metrópole de Andrômeda, a apenas dois metros de distância, tem também dois subúrbios principais e vários outros menores, disciplinados e redondos como se um urbanista os tivesse planejado. Ao todo, o que denominamos Grupo Local está contido num raio de três metros em volta de nós e se constitui numa parte do Aglomerado de Virgem, que congrega mais de cinquenta agrupamentos parecidos com o Grupo Local, num raio de cinquenta metros a partir da Via Láctea. O agrupamento mais próximo do nosso é o Grupo do Escultor, a sete metros de distância, e que contém meia dúzia de brilhantes galáxias espiraladas reunidas numa esfera ideal de três metros de diâmetro. A nove metros fica o Grupo Ursa Maior-Girafa, um pouco mais espalhado, com suas galáxias distribuídas num volume de três metros de raio, concentradas em torno de duas galáxias maiores, como no Grupo Local.

A paisagem que vemos é povoada de galáxias de variados tamanhos e formas, desde botões, azeitonas, anéis, nozes e ovos de avestruz até pires, pratos e bolas de golfe, tênis e rugby. Em regiões mais distantes, já foram vistas galáxias do tamanho de bolas de basquete e pizzas das grandes. As mais belas, entre as quais incluímos sem modéstia a nossa e a vizinha Andrômeda, têm a forma espiral, com braços luminosos e recurvados onde predominam as estrelas jovens, quentes e azuis, que partem de um bulbo central em forma de elipsóide, apinhado de estrelas velhas, amarelas e alaranjadas. Em torno dessas galáxias maiores gravitam dúzias de aglomerados globulares, esféricos ou elípticos, com dezenas ou centenas de milhares de estrelas muito antigas e avermelhadas. O tamanho destes aglomerados varia entre o de uma cabeça de alfinete e o de uma cabeça de fósforo.

Se olharmos para mais longe, veremos que é uma constante a tendência das galáxias para se reunirem em agrupamentos sem forma definida, como aqui por perto, e que esses agrupamentos por sua vez tendem a se arrumar em filamentos espichados de estopa cósmica, por grandes extensões além do ponto onde estamos. Algumas galáxias, entretanto, são mais individualistas e preferem ficar afastadas dos grumos mais densos de matéria e luz, em regiões menos povoadas. Esses filamentos, que se estendem em todas as direções, têm, às vezes, vários quilômetros de comprimento, ramificando-se e contorcendo-se em configurações que são as maiores estruturas conhecidas pelo homem. E elas vão até onde? Onde ficam os limites do universo? E além desse limite?

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5 – E para além disto?

Não há limite. Nem nenhum depois, nem nenhum lado de fora no Modelo Cósmico. Enquanto nos modelos anteriores podíamos assumir uma posição exterior a eles para contemplá-los de fora, agora isto não é mais possível, porque não há nenhum fora para onde ir. O Modelo Cósmico só pode ser apreciado de dentro. Vamos tentar esclarecer isto.

Entre os anos de 1924 e 1929, o astrônomo americano Edwin Hubble fez duas importantes descobertas, que marcaram o início da cosmologia moderna e até hoje se constituem na base do que conhecemos sobre o universo, em sua escala mais ampla. Primeiro, ele constatou que, tal como previu intuitivamente Kant, o cosmos é um colossal arquipélago, formado de “ilhas” tão grandes que cada uma delas poderia ser confundida inadvertidamente com o próprio universo, como aliás ocorria antes dessa descoberta. Em segundo lugar, ele verificou, para sua surpresa e espanto da comunidade científica, que o arquipélago estava explodindo. Ou seja, embora as ilhas-galáxias permanecessem normalmente com seu tamanho inalterado, elas estavam se afastando umas das outras a velocidades enormes, tanto maiores quanto mais longe de nós estivessem. Era como se fôssemos o centro de uma fantástica explosão, ou como se tomadas de um inexplicável pudor, inspirado pelo fato de estarem sendo observadas, as galáxias fugissem de nós horrorizadas na maior velocidade possível. Muitos cientistas, inclusive Albert Einstein, consideraram essa descoberta um equívoco de Hubble porque ela implicava que, se as galáxias fugiam desesperadas em todas as direções, elas certamente estiveram unidas em algum ponto do passado remoto. Isto significava que o universo teve uma origem e estava em evolução, quando sempre se admitiu que ele era eterno e imutável, em suas linhas gerais. Mas as constatações de Hubble se confirmaram e a teoria do big bang, da grande explosão primordial, é a que melhor corresponde aos fatos observados, constituindo-se na explicação standard do universo pela ciência. Quanto ao fato aparentemente singular de todas as galáxias estarem fugindo exatamente do ponto onde estamos nós, a explicação é que, se o espaço inteiro estiver se expandindo por igual, qualquer de seus pontos terá a ilusão de ser o centro dessa expansão.

Embora haja alguma dúvida quanto à data exata, admite-se atualmente que o big bang ocorreu num instante situado entre dez e vinte bilhões de anos atrás, o que dá ao Modelo Cósmico um tamanho aproximado de vinte a quarenta quilômetros de diâmetro. Não é muito grande, convenhamos... E o que veremos, se nos aproximarmos da borda dessa esfera?

Aqui surge um problema sério. Enquanto nos outros modelos podíamos nos deslocar de um lado para outro, o que permitia examinar de perto cada objeto nele contido, em nosso Modelo Cósmico isto não é possível. Nem mesmo com os poderes extraordinários da psico-tecnologia. Por quê? Porque se nos deslocássemos, o centro do universo se moveria junto conosco, e com ele a sua periferia. De certa forma, poderíamos nos mover, caso a psico-tecnologia nos desse um veículo apropriado, mas o horizonte cósmico também se deslocaria conosco e nossa posição continuaria central com relação ao universo. Para cada galáxia que visitássemos, qualquer que fosse a sua distância da Via Láctea, o centro aparente do universo continuaria sendo ela, como nos parece daqui, quando olhamos intrigados a explosão cósmica em volta de nós. O raio do universo continuaria a ser de dez a vinte quilômetros e seu centro continuaria sendo nós mesmos, que o estamos observando. Costumo fazer uma analogia, que me parece elucidativa, com o que acontece quando vemos um arco-íris à nossa frente, enquanto viajamos por uma estrada: nem conseguimos nos aproximar dele nem ele muda de tamanho, quando nos deslocamos; o centro do arco-íris é sempre quem o observa e ele se desloca junto conosco. Assim também é o universo. Cada um de nós é o centro do arco-íris e o centro do universo.

Mas, conformados com a inutilidade do nosso deslocamento através do Modelo Cósmico, voltemos ao ponto onde estávamos, próximo à Via Láctea, e procuremos distinguir o que vemos ao longe, uma vez que esse longe sempre continuará longe. Se temos como referência e limite a velocidade da luz, a cada quilômetro mais distante estaremos vendo uma região do universo um bilhão de anos mais nova, como uma cebola que, vista de dentro para fora, tivesse cada camada exterior mais jovem do que a precedente, e cuja casca fosse a sua origem – o big bang. Entretanto, se nos deslocarmos em nosso veículo psico-tecnológico até uma galáxia distante, não mais a veremos jovem, como a víamos do ponto onde estávamos antes, e sim envelhecida de tantos milhões ou bilhões de anos quanto a distância que percorremos até ela; portanto, quando chegarmos lá, vamos encontrá-la da mesma idade que a Via Láctea que deixamos.  

À medida que olhamos para mais longe e com isso contemplamos um tempo mais recuado, a paisagem muda e novos personagens podem ser discernidos na distância. A quatro ou cinco quilômetros aparecem galáxias mais compactas, com seu núcleo emitindo energia intensamente nas faixas de rádio, como não costuma acontecer aqui por perto. Um pouco mais adiante surgem objetos pequeninos como o Sistema Solar (lembram-se do seu tamanho insignificante, com relação à Via Láctea?), porém mais energéticos que toda uma galáxia convencional. A uma distância de seis a dez quilômetros, estes objetos, que não existem em nossas proximidades, passam a ser os principais habitantes do cosmos e daí em diante já não há galáxias e somente eles povoam aquelas lonjuras. Apesar do seu tamanho minúsculo, muitos desses objetos chegam a ser cem vezes mais luminosos que as mais brilhantes galáxias conhecidas; são os quasares.

Estamos vendo ao longe o universo tal como ele foi a cinco, dez ou quinze bilhões de anos atrás. Não sabemos muito a respeito desses objetos extraordinariamente luminosos, que não existem em nossas proximidades, ou seja, em nosso tempo atual, em que o universo já tem quinze ou vinte eons(*) de idade. Vemos os quasares com o mesmo espanto de quem descobre fósseis de bactérias da era arqueozóica, quando a vida mal tinha-se estabelecido no planeta Terra. Os quasares são os fósseis do universo físico, algo que surgiu antes das galáxias e que provavelmente são seus ancestrais. Nessa região, inacreditavelmente remota no tempo e na distância, termina o alcance dos instrumentos de que o homem dispõe para perscrutar os limites da esfera cósmica que o contém.

E o que ocorrerá quando entrarem em operação radiotelescópios ou telescópios ópticos suficientemente poderosos para se enxergar além do limite calculado de vinte bilhões de anos luz, a possível idade máxima do universo? Conseguiremos ver o big bang? Poderemos então assistir ao próprio nascimento de tudo, na explosão primordial do fiat lux?

 Infelizmente não. Além de um limite máximo de “visibilidade”, em qualquer faixa espectral, antes de podermos encarar face a face o big bang, tudo vai escurecer. No vídeo, conectado ao radiotelescópio, onde estaremos ansiosos, procurando desvendar um dos mistérios maiores da existência, a luz derradeira que poderemos ver não será a luz do instante primevo da Criação. Porque o universo nasceu escuro e a casca de nossa cebola cósmica é negra e opaca. No princípio, não havia nenhuma radiação e, portanto, nenhuma luz. Só a consciência divina pairava no limiar do incipiente existir. E o divino pudor da Deusa-Mãe não permite que se abra a última cortina, na sala de parto do universo.

Na viagem que empreendemos, o veículo que usamos foi a imaginação – a maravilhosa capacidade que temos de ver com os olhos do espírito – e o combustível que alimentou nossa nave foi a informação, obtida pelos instrumentos nos procedimentos experimentais da ciência. O principal recurso imaginário empregado foi a expansão do nosso espírito para dimensões extraordinárias, acompanhando passo a passo o tamanho de cada campo observado e imaginado. Como resultado sentimos, com algum espanto, que nosso espírito pode ter virtualmente o mesmo tamanho que o universo. E de fato tem, disto podemos estar certos. Como conclusão, verificamos, no fim da nossa jornada, que o centro do universo é, inescapavelmente, o nosso próprio ser, a subjetividade que cada um de nós é, não nos sendo facultado sair dessa posição privilegiada, nem para fora do universo, nem para fora de nós mesmos.

Ao regressarmos para casa, depois de visitar os remotos confins do cosmos, temos muito o que ponderar. Quando nos dermos conta de que tudo que vemos, conhecemos e imaginamos do universo físico exterior a nós tem seu correspondente modelo dentro da nossa mente, poderemos então ver, também a nós mesmos, com os olhos livres da imaginação bem informada e concluir, estupefatos, que o universo inteiro não é mais que um vasto espelho a refletir o nosso próprio espírito.



(*)  O eon é a unidade de tempo utilizada em cosmologia e corresponde a um bilhão de anos solares.

 

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