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Um Simpósio Científico em 2008

PRIMEIRA ETAPA

Do Não-tempo ao Tempo 3D

 

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Subtópicos

1 – Do big bang ao Sol

2 – A Terra primitiva

3 – A vida vem de longe

4 – Um cosmos pleno de vida

5 – Cometas: os ônibus interestelares

6 – O fim do isolamento cósmico

7 – Homo sapiens: o grande predador

Referências bibliográficas

#02 - As Origens

Quem responde pela Terra?

Axel Svedberg – Universidade de Uppsala – Suécia

 

1 -Do big bang ao Sol

O mito de origem "oficial" da ciência contemporânea tem início com uma titânica explosão, a uma temperatura inimaginável, que deu origem ao espaço, ao tempo linear da evolução, à radiação, à matéria e a tudo que os cientistas consideram "existente" no cosmos. O big bang – expressão criada por Fred Hoyle nos anos 40 – teria ocorrido em pleno nada, em lugar nenhum, porque não havia ainda "lugares", assim como não havia "tempo". Por que teria ocorrido o big bang é uma questão limítrofe entre a cosmogonia e a metafísica, entre a ciência e o mito religioso. É uma singularidade física e filosófica, onde os conceitos da razão perdem a força e o significado, embora alguns cientistas tenham tentado explicar sua ocorrência como uma "instabilidade quântica" no vácuo primordial. Isto transfere o problema para a necessidade de se conceber o que teria sido esse vácuo primordial e quais as suas propriedades.

De acordo com os dados atualmente disponíveis, essa explosão inicial teria acontecido entre treze e vinte bilhões de anos atrás, pela nossa forma de contar o tempo. A cerca de um milésimo de segundo do instante inicial (que muitos cosmólogos modestamente consideram ainda inacessível ao conhecimento), a temperatura era superior a cem bilhões de graus e o universo inteiro não tinha sequer o tamanho de uma semente de mostarda. Não havia átomos, nem partículas, nem radiação, nem as interações elementares que organizam o universo físico: apenas uma enorme força de repulsão, capaz de suplantar toda a coesão da incipiente gravidade e saturar de energia o minicosmos, que inflou extraordinariamente nas frações de segundo que se seguiram.

Com a expansão desmesurada a temperatura caiu para poucos bilhões de graus, permitindo o surgimento da gravitação, das forças nucleares, da radiação e das partículas. As partículas elementares primordiais – fótons, prótons, elétrons e nêutrons – organizaram-se então em energia e matéria, formando os átomos primevos de hidrogênio, hélio e algum lítio, que até hoje constituem mais de noventa por cento da matéria conhecida do universo. A massa inicial do cosmos fendeu-se depois em bilhões de segmentos, que vieram mais tarde a se configurar em galáxias, sob a regência da força gravitacional. Contudo, a ciência modestamente declara não saber ainda por quê, e como, ocorreu esta fragmentação do universo em galáxias e estrelas.

As galáxias mais antigas – muitas das que podemos ver com nossos telescópios – são estéreis, isto é, não podem abrigar a vida baseada em estruturas químicas, porque as estrelas de que são constituídas contêm apenas hidrogênio e hélio, que por si sós não sustentam uma base química suficientemente diversificada para as necessidades da vida, tal como a concebemos. As estrelas de primeira geração, portanto, não podem ter vida orgânica em seus sistemas, porque não existem aí carbono, oxigênio, fósforo, magnésio, ferro, cálcio e nenhum dos elementos cujo número atômico seja superior a três, correspondente ao lítio. Esses elementos mais pesados, indispensáveis à vida, foram sintetizados nas altas temperaturas dos núcleos das estrelas da primeira geração e somente liberados quando, no final de sua existência, elas explodiram lançando ao espaço essa nova matéria-prima para formar as de segunda geração e seus sistemas planetários.

O Sol é uma estrela de segunda ou terceira geração, formada junto com seus planetas e satélites, a partir da reaglutinação dos estilhaços de outras, que explodiram milhões de anos antes, depois de cozinharem no forno alquímico dos seus núcleos os elementos mais pesados, que entraram na composição do novo sistema, junto com o hidrogênio e o hélio. Segundo o mito científico da cosmologia atual, os fragmentos da estrela ancestral, que ficaram espalhados em nossa região da galáxia desde sua explosão, voltaram a aglomerar-se sob a ação da gravidade, num processo inicialmente lento, que depois foi-se acelerando, denominado coalescência.

Quando uma grande estrela chega ao fim de sua existência, esgota o combustível que alimentava suas reações termonucleares – o hidrogênio, que foi sendo convertido em hélio – e infla desmesuradamente, passando a se constituir numa supergigante vermelha, cujo diâmetro pode ser maior que o da órbita da Terra. No momento em que a pressão interior das reações termonucleares no núcleo da supergigante não mais consegue contrabalançar o peso de sua massa, ela desaba para dentro e implode. Em instantes, esta implosão se reverte numa formidável explosão – agora para fora – tornando-se uma supernova, uma explosão titânica que desintegra a maior parte da sua massa em estilhaços, detritos e poeira, lançados ao espaço e, por alguns dias, supera em brilho a luminosidade de uma galáxia média. No centro da explosão, girando alucinadamente muitas vezes por segundo, permanece residualmente uma estrela de nêutrons, pequena e extraordinariamente densa, também conhecida como pulsar. Ou então um buraco-negro, sem dimensão espacial, cuja espantosa força gravitacional não permite sequer que a luz escape, permanecendo invisível como um fantasma da estrela que se foi.

Os detritos lançados ao espaço formam nuvens, ou halos, com alguns anos-luz de diâmetro, que fornecerão os elementos necessários à química da vida, quando uma nova estrela vier a se formar a partir desses resíduos. Essa nuvem será a matriz de uma geração de estrelas férteis, apropriadas para desenvolver a vida nos privilegiados planetas dos seus sistemas que, sendo portadores dos novos elementos agora disponíveis, também estejam situados a uma distância adequada da estrela central, numa faixa onde a radiação térmica e a luz dela recebidas estejam na proporção correta para viabilizar a diversificada gama de reações químicas indispensáveis aos processos biológicos. Este, em síntese, é o mito científico atual da origem do Sol e do seu séquito de planetas, satélites e asteróides.

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2 – A Terra primitiva

A Terra é o planeta que se encontra exatamente no meio da ecosfera, a faixa de distâncias da estrela central onde as condições de temperatura e luminosidade são ideais para a vida. Formou-se há quatro bilhões e seiscentos milhões de anos, ao mesmo tempo que o Sol e os demais astros do nosso sistema, pela aglutinação de planetésimos e cometas, ou seja, corpos celestes que, por sua vez, também foram formados por outros menores, todos remanescentes da explosão da estrela ancestral. Durou centenas de milhões de anos esta sucessão de choques entre protoplanetas, que progressivamente aumentavam de tamanho pela agregação de outros que passavam ao alcance do seu crescente campo gravitacional. As colisões geravam temperaturas muito altas e aquilo que depois veio a ser nosso encantador planeta azul foi, nessa era primitiva, uma bola incandescente de rochas em ebulição e metais em fusão. Estes últimos, pelo seu peso específico maior, mergulharam na rocha derretida para formar o núcleo central metálico do novo corpo celeste. O ferro que existe hoje na crosta terrestre teve sua origem em meteoritos que caíram depois que a crosta solidificou-se. A sua origem sideral revela-se na raiz da palavra siderurgia.

Os materiais de que eram formados os planetésimos classificam-se em metais, rochas e voláteis, os mesmos constituintes dos asteróides, meteoritos e cometas que percorrem o espaço interplanetário, como remanescentes daquela fase primordial, ou ainda mais antigos. Os asteróides e meteoritos podem ser metálicos, rochosos ou uma mistura dos dois, enquanto os núcleos de cometas contêm rochas intimamente misturadas com voláteis – água, amônia, metano, dióxido de carbono e complexas moléculas orgânicas – que permanecem congelados enquanto estão distantes do Sol, mas que se evaporam sob a ação do calor, quando dele se aproximam. Nessas ocasiões, formam-se a coma – um halo de gás luminoso em volta do núcleo – e exuberantes caudas de poeira e plasma, com milhões de quilômetros de comprimento, quando os gases do núcleo aquecido são "soprados" pelo vento solar.

Estudos realizados em modelo de computador mostram que o nascimento da Lua ocorreu durante a fase em que tudo estava em fusão, no momento em que um planeta primordial do tamanho de Marte colidiu conosco, no que teria sido o maior dos cataclismos que atingiram a Terra, durante a sua formação. O choque não foi frontal, mas num ângulo tal que a maior parte das massas dos dois corpos celestes uniram-se no que hoje é a Terra, mas uma enorme porção de suas camadas rochosas externas foi lançada ao espaço próximo e arredondou-se por gravidade para formar a Lua. Um detalhe suplementar, que o computador informa, é que todo o processo do nascimento da Lua aconteceu num período de apenas nove horas.

Terra e Lua formadas começaram seu processo de resfriamento, retardado pelo calor resultante da chuva de planetésimos remanescentes, que prosseguiu durante centenas de milhões de anos e em rigor nunca cessou totalmente. A Lua, muito pequena para reter uma atmosfera, devolveu ao espaço os voláteis que a queda de milhões de cometas depositava na sua superfície; mas na Terra, com uma gravidade bem maior, eles ficaram retidos, e dos miríades de cometas de todos os tamanhos que aqui se precipitaram foram formados os oceanos e a atmosfera primitiva.

Numa fase inicial, quando caíam na superfície incandescente, os cometas logo explodiam em vapores e, sob a forma de densas nuvens, ficavam retidos numa atmosfera muito quente. Depois, teve início outra fase, em que uma chuva de proporções inimagináveis precipitou-se durante milhões de anos, ininterruptamente, sobre toda a extensão do planeta. Inicialmente, a temperatura era tão alta que as gotas ferviam e evaporavam-se antes mesmo de atingir a superfície mas, posteriormente, passaram a lavar impetuosamente as montanhas ainda quentes, resfriando-as, erodindo-as e formando torrentes escaldantes de lama que se reuniram nos oceanos primitivos, em formação nas depressões maiores. Desta era nada restou como testemunho, porque a violência dos processos naturais era fantástica e as rochas da superfície foram erodidas e alteradas tão logo emergiam nos movimentos orogênicos da crosta, eivada de vulcões. Na Lua, entretanto, que não reteve atmosfera nem mares, a superfície guarda os testemunhos: as marcas e cicatrizes dos impactos de asteróides, desde a infância caótica do Sistema Solar e de toda a sua história, até os meteoritos mais recentes.

Um cenário menos hostil para o desenvolvimento da vida ficou definido cerca de seiscentos milhões de anos depois do início da sua formação, quando a Terra, com sua crosta já resfriada, estava provida de oceanos e de uma atmosfera – embora a constituição desta fosse muito diferente da atual. A distância do Sol ficou perfeita para permitir temperaturas médias, onde as incontáveis reações da química orgânica poderiam ocorrer, sem que fossem retardadas ou bloqueadas pelo frio nem tivessem seus produtos logo decompostos pelo excesso de calor. Formou-se então, na atmosfera e nos mares, uma grande variedade de substâncias e moléculas que hoje sabemos indispensáveis aos processos vitais.

Mas a existência de um cenário montado não implica automaticamente no início do drama.

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3 – A vida vem de longe

A ciência realmente não sabe como a vida começou, embora já tenha aprendido, ainda nos anos 50, a fazer em laboratório alguns do seus componentes moleculares básicos – diversos aminoácidos – que, por algumas décadas, alimentaram a ilusão de que a criação da vida in vitro estava próxima. Mas até hoje essas experiências aparentemente promissoras avançaram pouco, chegando-se a sintetizar açúcares, como a ribose e a glicose, e algumas cadeias curtas de aminoácidos; nada mais além disso. A distância que resta a percorrer até a mais singela das bactérias artificiais é imensa, e parece decididamente insuperável.

Assim como a ciência declara nada saber da transição entre a bola de fogo primordial e a formação das primeiras galáxias e estrelas, também o período inicial do aparecimento dos primeiros seres vivos é uma terra incognita, percorrida por muitas especulações e fugazes certezas que logo se desvanecem. Estudos realizados no material genético das bactérias vivas mais antigas sugerem que a vida surgiu antes mesmo que o bombardeio cósmico se atenuasse, há cerca de quatro bilhões de anos. Entretanto as convulsões geológicas apagaram todos os registros desse evento. Por isto, teremos que dar outro salto sobre o desconhecido, um salto de centenas de milhões de anos, até o momento em que as primeiras bactérias apareceram naquele mundo primitivo e deixaram fósseis como testemunho de sua existência em algumas rochas daquela era remota, denominada arqueozóica.

A vida quando surgiu – ou aqui chegou, das profundezas do espaço interestelar – era constituída de organismos unicelulares que não precisavam de oxigênio, que não existia livre na atmosfera original. Muito pelo contrário, para esses organismos primordiais, o oxigênio era um gás venenoso. O oxigênio molecular somente começou a se formar milhões de anos depois, como um subproduto da fotossíntese, "inventada" pelas algas azuis, ou cianobactérias, e levou pelo menos um bilhão de anos até que começasse a se acumular significativamente na atmosfera. Sua primeira tarefa foi oxidar todo o ferro que os meteoritos deixaram na superfície terrestre e, à medida que sua participação percentual crescia, foi convertendo aos poucos a atmosfera de redutora em oxidante.

Apesar de ser relativamente simples, se comparada com os organismos que a evolução criou nos bilhões de anos subsequentes, a constituição interna das formas arcaicas de vida era extraordinariamente complexa em relação ao caldo pré-biótico dos oceanos primitivos, mesmo se admitirmos que os aminoácidos básicos já estivessem ali presentes, sintetizados pelas descargas elétricas das tempestades que ininterruptamente bombardeavam a superfície terrestre.

Desde há quatro bilhões de anos, as formas mais primitivas de vida já se baseavam numa química de enzimas e proteínas, reconstruídas em cada novo organismo segundo um código genético capaz de registrar informações detalhadas sobre esse complicado processo. Mas quando se examina a extraordinária arquitetura de uma molécula de DNA, ou RNA, é impossível não sentir uma forte suspeita de que não teria havido tempo para que estes fossem criados na Terra pelas forças casuais e seletivas da evolução: a distância que os separa – e também as enzimas e proteínas – da matéria pré-biótica é imensa, para ser percorrida em apenas umas poucas centenas de milhões de anos – ou até em bilhões de anos – de atuação dos imaginosos mecanismos propostos por Darwin. A suposição de que as informações genéticas pudessem ser armazenadas e transmitidas por alguma molécula mais simples do que o RNA não se sustenta, porque as intensas investigações até hoje procedidas, inclusive com sofisticados modelos de computador, não mostraram qualquer alternativa viável para o sistema DNA/RNA seja de complexidade comparável ou mais simples do que este.

Adicionalmente, os cálculos efetuados sobre o processo de oxigenação da atmosfera terrestre mostram que a fotossíntese deve ter entrado em ação desde 3,9 bilhões de anos atrás, ou seja, em torno de cem milhões de anos após o provável aparecimento da vida. Esse curto período para que a molécula da clorofila e o processo da fotossíntese fossem "descobertos" liquida com a tese darwiniana de que as mudanças nos organismos ocorrem fortuita e cegamente, ficando a seleção entre as variantes surgidas aleatoriamente para ser feita pelo meio-ambiente, numa fase posterior, que privilegiaria a sobrevivência das mais adaptadas. A informação genética modificada por acaso numa só proteína acumular-se-ia com extrema lentidão, diante das inumeráveis possibilidades combinatórias admissíveis para a disposição dos seus aminoácidos componentes.

Pode ser calculado facilmente que, para o acaso criar uma única proteína hipotética, com apenas vinte ligações químicas na disposição correta, seria necessário bilhões de gerações do organismo considerado, com uma absurda produção paralela de uma imensa enxurrada de proteínas inúteis e erradas, criadas no decorrer do processo. Mas uma proteína não tem apenas vinte ligações químicas; são muitas dezenas de ligações, o que multiplica a necessidade de reproduções a um número astronômico de gerações, absolutamente impossível de ocorrer no período de existência da Terra – e mesmo do universo, desde o big bang. E note-se que isto são estimativas para uma única proteína, quando um ser vivo dos mais simples precisa de centenas delas para funcionar.

Na visão deste novo século que se inicia, a ciência vê os mecanismos darwinianos de variação aleatória, competição e seleção como insuficientes para explicar a gênese da vida. Provavelmente, esse processo de variação aleatória nos registros genéticos é também inadequado para explicar o aparecimento de espécies novas, restringindo-se o seu funcionamento ao surgimento de variedades dentro de uma mesma espécie, como já foi constatado por observações e experimentos. O novo milênio surge com a perspectiva luminosa de um universo impregnado de vida e consciência e o ressurgimento das intuições, especulações ou consistentes inferências de homens como Emmanuel Swedenborg, Svante Arrhenius, Camille Flammarion, Francis Younghusband, Percival Lowell, Fred Hoyle, Chandra Wickramasinghe, Carl Sagan, Lyall Watson e tantos outros que, em diferentes épocas, sustentaram a sua confiança nas evidências da plenitude viva do cosmos.

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4 – Um cosmos pleno de vida

No confronto de paradigmas do século vinte, até recentemente, a tese da origem terrestre da vida ainda prevalecia, apesar de contrariar fatos, observações e cálculos que mostram o contrário. Hoje, o prato da balança pende para o outro lado e a noção de que a vida é um fenômeno extravagante e único, surgido espontaneamente em nosso planeta privilegiado, é tão obsoleta como a idéia da origem catastrófica do Sistema Solar, que propunha terem sido os planetas formados a partir do fortuito encontro com outra estrela que, ao passar perto do Sol, arrancara dele pedaços, que posteriormente se teriam condensado; se assim fosse, o Sistema Solar seria um caso raríssimo, talvez único, pela altíssima improbabilidade de uma estrela passar tão perto de outra, nas imensas distâncias do vazio cósmico.

Sabemos atualmente, e não mais apenas por deduções indiretas, que a maioria das estrelas tem sistemas planetários, que a galáxia está cheia de vida, e que suas sementes percorrem o espaço interestelar em nuvens de poeira e núcleos de cometas, prontas a fertilizar os ambientes favoráveis que encontrarem. A força bruta do preconceito, que tem perpetrado inúmeras violências éticas contra aqueles que ousam pensar e propor teses inovadoras, agiu contra todas as evidências de que o processo biológico não teve origem na Terra, mas provém de um cosmos pleno de vida e espírito, onde nosso planeta não é uma ocorrência excêntrica e singular.

Aquilo que se denomina poeira interestelar é, em grande parte, constituído de grânulos com uma estrutura complexa, nas dimensões aproximadas de uma bactéria. Muitos deles têm um núcleo metálico ou rochoso recoberto de moléculas pré-bióticas cujo nível de complexidade e organização ainda não é bem conhecido, revestido por uma superfície escura de polímeros orgânicos e gelo. Essa camada externa bloqueia os raios ultravioletas, que teriam uma ação deletéria sobre o recheio orgânico e, ao mesmo tempo, absorve o infravermelho, aquecendo o interior do grânulo para uma temperatura ligeiramente acima do quase zero absoluto do espaço.

Nos meteoritos denominados condritos carbonáceos foram encontrados fósseis que definitivamente não resultaram de contaminação ocorrida após sua queda na superfície terrestre. Em 1961, George Claus e Bartholomew Nagy, da Universidade de Nova York, desafiaram o mundo científico quando divulgaram sua descoberta de indícios claros de formações filamentosas semelhantes a fungos microscópicos em dois meteoritos carbonáceos, um deles encontrado em Orgueil, na França, e o outro na Tanzânia. Com a exceção do cientista Harold Urey, que sintetizara aminoácidos in vitro nos anos 50, toda a comunidade científica voltou-se contra eles, que se recolheram a um discreto silêncio. Mais recentemente, suas descobertas foram confirmadas: um meteorito recolhido na Austrália foi examinado com métodos mais modernos e rigorosos pelo cientista Hans Dieter Plug, que encontrou nele estruturas equivalentes às descobertas por Claus e Nagy, semelhantes à bactéria terrestre Pedomicrobium. Fred Hoyle comenta assim a descoberta de Pflug:

A estrutura do Pedomicrobium é tão característica que não há possibilidade de ser confundida, e quando Pflug encontrou exemplares carbonizados dessa bactéria – verdadeiros cachos delas – no meteorito, a questão, que até agora fora controversa, começou a inclinar-se para o lado de Claus e Nagy, que vinte anos antes tinham sido silenciados com tanta veemência. Finalmente observava-se uma prova clara da existência de vida extraterrestre.

Em 1996, a imprensa foi agitada pelas notícias de que bactérias foram descobertas em um fragmento meteórico proveniente de Marte, encontrado anos antes na Antártida. Como ficou comprovado, nada de essencialmente novo havia de fato sido descoberto, exceto pelo fato desse meteorito ser originário de Marte.

Mais de cem toneladas de material extraterrestre caem diariamente em nossa atmosfera sob a forma de meteoros. Destes, cerca de dois a cinco por cento são condritos carbonáceos que chegam à superfície contendo evidências de que são provenientes de algum lugar onde a vida era abundante. Calcula-se que 0,1 por cento de todo o material que cai na Terra é de origem orgânica, o que representa uma proporção maior do que a presença de matéria de origem viva na própria crosta terrestre. Comparando-se com o volume de todo o planeta, somente um milionésimo por cento da massa deste tem origem viva, o que mostra, segundo uma provocativa observação de Lyall Watson, que "os meteoritos carbonáceos vêm de um lugar um milhão de vezes mais orgânico que o planeta Terra."

Estudos realizados no material de um condrito carbonáceo encontrado na África mostraram que ele continha um polímero orgânico aromático com características espectrais equivalentes às de nuvens de poeira interestelar distantes do Sistema Solar. São marcas inconfundíveis, que revelam a procedência interestelar de alguns desses meteoritos, seguramente mais antigos que a própria formação do nosso sistema planetário, além de fornecerem a prova adicional de que efetivamente existe um intercâmbio cósmico de compostos orgânicos complexos indispensáveis à vida que, produzidos em regiões longínquas do espaço, são depois exportados, inclusive para a Terra.

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5 – Cometas: os ônibus interestelares

Embora muito dessa matéria interestelar, sob a forma de grânulos de poeira ou corpos de maiores dimensões, possa, ao longo de milhões de anos, deslocar-se por conta própria no espaço cósmico, flutuando ao sabor dos ventos estelares ou de sua própria inércia, remanescente das forças que os impulsionaram na origem, os cometas são altamente suspeitos de servirem de veículos de transporte para esse comércio cósmico de matéria viva ou pré-biótica.

Até meados dos anos 80, a maior parte das informações sobre a composição e estrutura desses astros errantes ainda eram as obtidas por análise espectral de longa distância. Mas com a aproximação do Halley, em 1986, uma flotilha de seis naves de diferentes países foi enviada ao seu encontro. E o que agora se sabe é o suficiente para suspeitarmos que os cometas estão seriamente comprometidos com os aspectos biológicos do espaço interestelar e a disseminação da vida pelas estrelas. Além de remanescentes de eras pré-solares, quando o Sol e seu cortejo de planetas ainda não se tinham formado, os cometas têm em seus núcleos altas concentrações de moléculas orgânicas, que não sabemos ainda se estão ou não fazendo parte de organismos congelados mais complexos, tais como vírus, esporos ou bactérias, à espera de encontrar condições propícias ao seu desenvolvimento, em algum planeta fértil. A idéia de que epidemias podem ser provocadas pela passagem de cometas perto da Terra é uma crença recorrente em muitas culturas – inclusive a nossa, durante a Antiguidade e a Idade Média – e essa possibilidade não pode ser inteiramente descartada, pelo que hoje se sabe.

Os cometas que gravitam em torno do Sistema Solar contam-se aos trilhões – um número bem maior do que as estrelas da nossa galáxia, uma colossal população que confere à nuvem cometária o status de um miniuniverso em torno de nosso sistema estelar. Estes miríades de cometas organizam-se em dois halos esféricos: o menor deles, chamado Cinturão de Kuiper, tem uma população mista de cometas e asteróides, começa além da órbita de Netuno e vai até duas ou três vezes essa distância. A nuvem maior começa muito além do cinturão interior, estendendo-se até mais de um ano-luz do Sol, cerca de um quarto da distância até o sistema estelar mais próximo, o de Alfa Centauri.

Esse halo, gigantesco mas extremamente rarefeito, é denominado Nuvem de Oort em homenagem ao astrônomo holandês que o descobriu, constituindo-se na mais exterior das formações do Sistema Solar. Sua borda externa é, na verdade, indefinida, mas pode-se dizer que está no limite da influência gravitacional do Sol, onde essa atração é extremamente débil. Isso torna os cometas mais distantes sujeitos à ação de outras estrelas, que eventualmente perturbam suas órbitas – ou lançando-os em direção ao cinturão de Kuiper, ao Sol e seus planetas, ou então capturando-os para sua própria nuvem cometária, que muito provavelmente existe também em torno delas. Esta concepção, que encontra firme suporte nas observações, cálculos e inferências da astronomia atual, coloca os cometas na condição de ônibus ou caminhões interestelares, transportadores de matéria viva ou pré-biótica, ao longo dos muitos bilhões de anos da história viva do universo.

Obviamente, se o encontro casual de duas estrelas é extremamente improvável, isto não acontece com a interpenetração de suas nuvens cometárias, que seguramente não são privilégio do Sistema Solar. Pelo contrário, como em nossa região da galáxia a distância média entre estrelas é da ordem de três a cinco anos-luz, e o diâmetro dos halos cometários que envolvem uma estrela como o Sol é da ordem de dois anos-luz, deduz-se que as trocas de cometas entre sistemas estelares não são raras, já que esses halos estão em contato ocasional, influenciando-se mutuamente.

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6 – O fim do isolamento cósmico

Assim, neste momento de transição de século e de milênio, o complexo de isolamento que a ciência dos astros disseminou entre nós, durante o século vinte, pela constatação das enormes distâncias que separam as estrelas, fica substancialmente alterado quando se verifica que o Sistema Solar não termina na órbita de Plutão, e que o magnífico halo de miríades de cometas que nos envolve está em contato e intercâmbio com outros halos equivalentes das estrelas próximas. E esse intercâmbio é de natureza orgânica, viva, a um passo da descoberta que deverá ser confirmada nos próximos anos: que também o psiquismo impregna a galáxia e todo cosmos, como Swedenborg, James Jeans, Alfred North Whitehead, Alfred Russel Wallace e grande parte dos maiores sábios de todos os tempos já intuíam, ainda que alguns deles não ousassem explicitá-lo ex catedra.

Num salto de escala para as dimensões galácticas, quero lembrar a investigação astronômica que, nos anos 80, conduziu à conclusão de que a morfologia das galáxias é inexplicável pela simples ação gravitacional daquilo que nelas vemos pelos telescópios: estrelas e nuvens de poeira e gás. O comportamento e as velocidades destes componentes visíveis das galáxias, especialmente nos limites do que parece ser sua borda externa, somente fazem sentido se estiverem imersos num enorme halo invisível daquilo que se convencionou chamar de matéria escura, ou massa oculta, cuja natureza não é ainda conhecida mas que parece constituir cerca de noventa por cento da massa total de uma galáxia. Somente a ação gravitacional desse manto invisível poderia explicar as peculiaridades dos movimentos das estrelas e nuvens de gás das periferias galácticas.

Essa é outra descoberta espantosa porque, se realmente existirem, esses halos de massa oculta deixarão claro que somente vemos, ou registramos nos radiotelescópios, dez por cento do que é o universo. Calcula-se que sejam tão grandes os halos invisíveis que envolvem as partes conhecidas das galáxias com essa misteriosa matéria, até hoje somente detectada pelos seus efeitos gravitacionais, que eles efetivamente interpenetram-se com os halos equivalentes das galáxias vizinhas. Como vemos, ocorre entre as galáxias o mesmo tipo de contato e – quem sabe? – intercâmbio que existe entre as estrelas, através dos seus halos cometários. Mas na escala galáctica o mistério é maior, porque não sabemos sequer o que seja essa matéria escura que não é detectada no espectro eletromagnético, pelo menos nas faixas de frequência da luz visível e das radioemissões até agora estudadas.

Assim, a imagem do universo físico que nos será familiar neste início de milênio será bem diferente daquela com que convivemos até os últimos anos do século vinte. Agora, sabemos que as estrelas e as galáxias estão de mãos dadas, e a impressão de solidão imensa que a astronomia do século vinte nos causou, disseminando nos espíritos mais sensíveis uma agorafobia cósmica, é substituída pela imagem de um universo fraternal e solidário, que nos assusta menos e abre caminho para uma participação plena na consciência da totalidade.

A simples admissão destes fatos, ao lado do reconhecimento de que os mecanismos conhecidos da evolução biológica não podem explicar o surgimento da vida na Terra primordial – nem mesmo num universo de vinte bilhões de anos – já seriam suficientes para estabelecer um novo paradigma cosmológico para o século vinte e um. Esta visão empolgante configura a base científica do novo mito, de que a humanidade necessita ardentemente desde a perda de suas raízes cósmicas, no breve interregno de dois ou três séculos em que uma ciência mecanicista e preconceituosa pretendeu usurpar para seu uso exclusivo o sentido da palavra conhecimento.

A esta altura, sei que para surpresa de muitos, quero lembrar o que disse Alfred Russel Wallace – o parceiro de Charles Darwin na teoria da evolução – em seu livro The World of Life, publicado na mesma época da Origem das Espécies:

Deve existir um mundo invisível do espírito que faz com que ocorram mudanças no mundo da matéria; e a evolução deste planeta deve receber orientação e auxílio externos, de inteligências superiores e invisíveis, às quais o homem é suscetível enquanto ser espiritual. Além disso, essas inteligências muito provavelmente existem em seres de grau superior a nós.

A produção de aminoácidos, açúcares e outras moléculas fundamentais da vida, ocorre nas galáxias férteis como uma forma espontânea de organização da matéria, sempre que existirem as condições apropriadas de temperatura, pressão, disponibilidade de energia e elementos químicos básicos. E a vida propriamente dita, ao que tudo indica, dissemina-se pelo espaço num processo de fertilização cósmica, através de poeiras e asteróides errantes, remanescentes de antigos sistemas onde ela já se tinha estabelecido, e principalmente de bilhões de trilhões de cometas que se comportam como esperma interestelar, prontos a aspergir suas sementes e esporos com as caudas geradas pelo vento estelar, quando se aproximam dos planetas de algum sistema.

A predisposição dos planetas férteis para desenvolver processos biológicos é bem ilustrada pela Terra, onde a vida começou sua trajetória evolucionária decorridos apenas 600 ou 700 milhões de anos depois da sua formação, ainda na sua infância. Não há qualquer razão para supor que o mesmo não ocorra sempre que o sistema de fecundação interestelar encontre planetas adequados, e que a Via Láctea não esteja plena de vida, em suas ecosferas.

A ciência ainda não sabe, e talvez nunca venha a saber, quantas vezes a Terra precisou ser fecundada para que os processos biológicos viessem a prosperar, porque até há algumas dezenas de milhões de anos ocorreram inúmeras extinções, chegando por vezes a liquidar mais de 95 por cento dos seres vivos então existentes. Nas fases preliminares de desenvolvimento da vida, o ambiente era bem mais hostil e instável que alguns bilhões de anos depois, sugerindo que o processo de semeadura cósmica teria se repetido várias vezes, em face das múltiplas extinções totais causadas pela precipitação catastrófica de grandes planetóides, então muito frequentes. Essas extinções – das quais a mais conhecida é também a mais recente, do final do Cretáceo, há 67 milhões de anos, que liquidou o domínio dos grandes répteis do Mesozóico – estão gravadas na memória ancestral dos seres vivos, particularmente do ser humano que, nas profundezas do inconsciente, guarda os registros de toda a evolução da humanidade, da vida e do próprio cosmos.

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7 – Homo sapiens: o grande predador

A fixação desses eventos no inconsciente coletivo explica a recorrência dos mitos de fim do mundo – o Dilúvio e o Apocalipse da tradição judaico-cristã, são exemplos – presentes em muitas culturas, com significativas semelhanças com os cenários de extinções descritos pela ciência. Nos dias em que vivemos, a presença dessa memória oculta, inconsciente, parece deflagrar alguns comportamentos autodestrutivos do homem, que por vezes mostra-se determinado a provocar alterações problemáticas no meio ambiente, interferindo na química da atmosfera, contaminando os mares e extinguindo inumeráveis espécies responsáveis pelo equilíbrio ecológico da biosfera.

Desde a sua formação, a humanidade, em sua longa marcha, vem acumulando por milhares e milhares de anos uma volumosa bagagem de culpas e de glórias. A vaidade do homem, entretanto, tem enfatizado com acentuada assimetria suas conquistas e feitos heróicos, que a historiografia registra como glórias, em detrimento de um olhar mais demorado sobre seu acervo de culpas, de delitos terríveis contra a vida, contra seus semelhantes, contra povos, culturas e raças, e contra seu planeta natal.

O Homo sapiens anatomicamente moderno surgiu há cem mil anos, quando o seu crânio de primata arredondou-se em cúpula para abrigar um cérebro mais desenvolvido, e sua face e mandíbula suavizaram-se numa expressão que hoje consideraríamos familiar. Mas por 60 mil anos suas ferramentas permaneceram rudes e nenhuma evolução cultural significativa aparece nos registros arqueológicos. O grande salto evolucionário para o desenvolvimento cultural somente aconteceu há 40 milênios, com o surgimento quase repentino da linguagem organizada. É nessa época que – na designação mais atualizada – evolve o Homo sapiens sapiens, assim autodenominado num paroxismo de orgulho que os gregos chamavam de hybris.

Equipado com a extraordinária ferramenta da linguagem, um dos primeiros feitos do herói foi inaugurar o aforismo da tecnologia que diz que toda ferramenta é também uma arma. E partiu para a conquista, tornando-se rapidamente o mais eficiente predador que a Terra já conhecera, ainda mais terrível que os monstruosos carnívoros do Mesozóico.

A comunicação falada de idéias complexas desenvolveu-se na faina das caçadas de animais de porte, onde o trabalho coordenado era essencial. A caça era predatória: cada área ocupada por um grupo era explorada até a exaustão das espécies que interessavam e, em seguida, abandonada, porque as tribos emigravam para novos territórios, onde a tarefa de extermínio prosseguiria. Assim, o mamífero inteligente viveu uma epopéia de conquista e de morte, ocupando em poucos milênios todo o espaço habitável do planeta e deixando atrás de si um rastro de milhares de espécies extintas. As espécies mais ferozes, mais ariscas, ou voadoras puderam sobreviver, as outras não.

Uma das vítimas desse holocausto ancestral foi o nosso irmão de Neanderthal, cuja imagem vem sendo reabilitada pelos antropólogos, depois de muitos anos de difamação promovida pelo culto de nossa própria imagem. Hoje, a paleoantropologia reconhece que os neandertais tinham um cérebro maior do que o nosso, enterravam seus mortos com cerimônias e flores, e provavelmente eram mais pacíficos do que nós. Talvez por isso mesmo tenham sido liquidados, 34 mil anos atrás.

A partir dessa conquista feroz do planeta, inventamos as fronteiras, o poder político e a glória militar. E prosseguimos na tarefa de perturbar os delicados equilíbrios da natureza, continuando a exterminar espécies e destruir florestas, corromper as águas e fabricar desertos em antigos mares, chegando mesmo a envenenar o ar que respiramos, que é o alento da Terra viva.

As técnicas industriais de produção acentuaram o comprometimento ambiental, e o consumo elevado de combustíveis fósseis passou a ameaçar muitas regiões, em escala bem maior do que nos séculos precedentes. A descoberta da energia atômica, que por pouco não foi empregada como arma de destruição em massa numa guerra suicida que poderia ter exterminado a civilização deixou, apenas com seus testes, sequelas de substâncias radioativas nas águas, no ar e nos ossos dos vertebrados – que felizmente parecem ter cessado de se acentuar.

Por outro lado, um dos fenômenos sociais mais promissores da segunda metade do século vinte foi a sequência de movimentos de opinião pública em todo o mundo, que pressionaram os detentores do poder a desistir de sua desvairada corrida por uma hegemonia mundial assegurada pela força dos arsenais atômicos. Não apenas os testes nucleares e o crescente acúmulo de armas estratégicas foi sustado pelos movimentos populares das décadas de 60 e 70, como também as agressões mais graves ao meio ambiente foram em grande parte revertidas nos anos 80 e 90, em consequência das mesmas pressões da opinião pública, nas regiões do mundo em que as massas se mostram mais sensíveis, porque estão melhor informadas e esclarecidas.

Com o colapso do autoritarismo soviético e o fim das tensões de confronto entre as grandes potências, a humanidade desta passagem de século pode dedicar-se com mais afinco à limpeza do planeta, poluído pela cegueira da geração precedente, e combater os bolsões de miséria, intolerância e violência que ainda assolam muitas regiões do mundo.

Assim como as manifestações populares baniram os testes atômicos e contribuíram decisivamente para o fim da corrida armamentista, também essas mesmas pressões fizeram valer a sua força, com a progressiva correção dos procedimentos prejudiciais ao meio ambiente, que estão revertendo o quadro sombrio dos anos 70, quando o ar das metrópoles estava quase irrespirável e muitos rios e lagos estavam morrendo, contaminados por poluentes.

O quadro atual ainda está longe de ser róseo, mas já sabemos que a capacidade de recuperação da natureza é bem maior do que se supunha até poucos anos atrás e que a maior parte dos danos ambientais é reversível. Permanecem, contudo, sérias dúvidas quanto à redução da camada de ozônio na alta atmosfera, sobre cujo prosseguimento ainda há controvérsias, embora a fabricação e uso das substâncias agressivas tenha cessado. A ameaça de uma guerra total parece ter-se desvanecido mais rapidamente do que se poderia supor há apenas vinte anos, mas as terríveis guerras locais, raciais e religiosas, continuam manchando de sangue muitas regiões do globo e ameaçando a todos com a prática execrável do terrorismo ensandecido e traiçoeiro.

Sabemos também, com clareza cada vez mais evidente, que as grandes fontes de poluição a combater são a ignorância e sua irmã, a corrupção. A pobreza, a fome e a violência, decorrentes da miséria econômica e da estupidez ética, são os grandes problemas ainda por resolver, nesta passagem de século e de milênio. Somente a educação e o desenvolvimento econômico extensivos a todos os povos, a todas as raças e credos e a todos os grupos sociais, em uma reformulação radical das relações entre o homem e a riqueza, poderá reverter o triste quadro que o nosso planeta apresenta, diante da comunidade galáctica que nos observa. Somente amplos movimentos de opinião pública em todo o mundo, equivalentes àqueles que estancaram os testes nucleares e corrida armamentista, e agora estão fazendo o planeta reverdecer e florir com o ressurgimento de um ilimitado respeito à natureza, poderão fazer recuar a corrupção, a ignorância e a fome, que ainda assolam a humanidade.

Recursos técnicos e financeiros é o que não falta. O que falta é uma reconceituação do que seja verdadeiramente a obscenidade, que envergonha este planeta: o desperdício, a miséria, a fome, a violência e todas suas irmãs, filhas da corrupção e de um egoísmo insano, que não mais devem persistir maculando a espécie humana, impossibilitando que ela possa assumir sua plena responsabilidade de segmento consciente do belo planeta azul que habitamos, com uma respeitável história de quatro e meio bilhões de anos.

Neste início de milênio, os problemas que a humanidade tem para resolver são de caráter algo distinto dos de quarenta ou cinquenta anos atrás. O reencontro das suas raízes cósmicas pode vir no bojo de uma revolução epistemológica que recupere a verdadeira noção do que seja conhecimento e resgate o valor da sabedoria, que o materialismo mecanicista desprezou.

A irrupção da ciência por caminhos até então insuspeitados, como este Simpósio deverá mostrar de modo inequívoco, é um processo irreversível, que dará ao ser humano uma nova identidade diante do universo exterior e da vastidão interior de si mesmo.

Quem pode responder pelo planeta Terra senão a humanidade, quando redimida das culpas e dos horrores que ainda acoberta sob o manto de vaidade desmedida que nos autodefine pretensiosamente como Homo sapiens sapiens?

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